Não, não era...

A porta estava aberta. A decisão de entrar por ela, em verdade, não lhes pertencia. Tanta vida vivida juntos, mas separados, tantas coisas que sabiam, lá no fundo da alma, mas que não deixavam aflorar. O cérebro se recusava a ouvir o coração. Não, não era amor. Como chamar a confluência de pensamentos? A visão do universo, do que tinham que fazer, como se fosse uma dívida eterna. Para que tanto estudo, tanto conhecimento se se sentiam ignorantes, mal preparados, para a vida, para o sentir. Um sabia do que o outro sentia, como pensava, como iria agir ou reagir, mas não, não era amor. A fotografia impressa na alma, de um dia, de um laço de fita, de uma expressão, um sorriso, um perfume. Ah, o perfume. Era um código secreto. Ela usava, ele sentia, e onde estivesse, bastava fechar os olhos, aspirar e sentir a presença dela. Em qualquer lugar, em qualquer tempo. E ela, a segurança da existência dele. Nada era mais forte do que a confiança que sentia apenas em saber que ele estava lá. Lá? Onde é lá? Qualquer lugar. Ele estava lá. E ela sabia. Tinha certeza que ele estaria lá sempre que ela o chamasse. Não precisava emitir som algum, apenas pensar, e ele se materializava. Nada dito, nada escrito. Para quê? Quem poderia dizer sentimentos? Certezas? Quem poderia escrever sobre isto? Que lei existe no mundo que faça alguém sentir? Viver? Não, não era amor. Ela respeitava o que ele era. Tudo o que ele era. Até mesmo seus defeitos. Nela ele não via erros, só via a imagem, sentia a pele. Tinha-a na memória desde sempre. Quando foi mesmo que a conheceu? Não lembrava. A vida não existia antes disso. A vida não existirá depois. Não, não era amor. Um dia ela perguntou: o que sente por mim? Ele não respondeu. Não existia resposta. Como colocar em palavras a vida? Ele nunca perguntou. Não havia necessidade de perguntar. Ele sabia. Via. Sentia. Quem mais sentiu o mesmo perfume? Quem mais recebeu o mesmo olhar? Quem mais fazia o mundo sumir para ela simplesmente com sua presença? Para que perguntar? Não, não era amor. Era algo indefinível, a soma de tantos e tão intensos sentimentos que duvidavam que alguém pudesse entender. Algo único. Feitiço do tempo. Os dias voltavam e voltavam. Os acontecimentos se repetiam, numa monotonia que apenas quem a vive pode entender. E gostar. E eles gostavam. Impossível tentar viver a vida da mesma forma que outros a entendiam. Ela era diferente para os dois. Ela só existia naqueles momentos. O resto do tempo? Cada um fazia o que tinha a fazer. Não, não era amor. Era o quê? Não sei.
Escrito por Ariane às 22h37
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Phoenix

Tantos sonhos de anos passados
hoje já não existem mais.
Amigos, amores, segredos,
nada importa, ficaram pra trás.
O que são as lembranças que tenho?
O que foi o ontem que já vivi?
O que espero do meu amanhã?
Olho o passado - não sei - já morri.
Renasço no dia do dia seguinte
espero usar a lição tão sofrida
nada é perene, mais vale o instante
este repleto, em segundos de vida.
Escrito por Ariane às 20h30
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