Retalhos e Pensamentos


Se não houver amanhã...

Acendeu um cigarro enquanto olhava para o mar. A paisagem descortinava-se, belíssima, à sua frente, melhor dizendo, abaixo de seus pés. Estava na varanda da confortável suíte que ele tinha escolhido para o encontro que, há muito, os corações dos dois pediam. Movimentou a cabeça, os longos cabelos cobriram seus olhos enquanto as lembranças atropelavam-se, embaralhando pensamentos, tumultuando a memória, misturando fatos, sonhos e fantasias. Há quanto tempo haviam se separado? Quantos anos de vidas correndo paralelas, sempre apontando na mesma direção, sempre vivenciando os mesmos acontecimentos, porém, com os corpos dos dois jamais se tocando, a despeito da vontade que, mesmo inconscientemente, os dois gotejavam pelos poros, vontade esta que pessoas sensíveis à volta deles podiam identificar?

A história dos dois começara há muitos anos e terminara sem ter acontecido, realmente, um ponto final. A verdade é que não terminara, fora apenas colocada em stand by, por mais que os dois tentassem demonstrar ao mundo que houvera, realmente, um fim. Todos acreditaram no final. Todos os que haviam convivido com eles nos velhos tempos, mas os que foram chegando depois, os que não os haviam conhecido anteriormente, sabiam, ou melhor, pressentiam, que a história dos dois não estava acabada por mais que ela afirmasse que sim. Um sorriso perpassou-lhe os lábios. As palavras de sua amiga* voltaram fortes a lembrança: “a história de vocês ainda não acabou”. Mal sabia a amiga o quanto fora profética. Sorriu novamente ao lembrar quando o telefone tocou e ela atendeu: “Tem uma passagem para você. Basta pegá-la, tomar o avião e me encontrar. Estarei esperando”. Ele desligou e ela ficou olhando para o fone em sua mão. Sacudiu a cabeça certa de que seus pensamentos estavam lhe pregando peças e tentou esquecer o que tinha ouvido. No dia seguinte, outro telefonema. As mesmas palavras. A mesma voz. Ele. Sua primeira reação foi dizer não, mas não disse. Seu coração começou a bater descontrolado e sua mente ficava martelando: “Por que não? Por que não? Por que não?” Desistiu de responder. Desistiu de querer saber porquês, sins ou nãos, e resolveu que, talvez pela primeira vez na vida, ia fazer o que tinha vontade. E apenas isto. Sem questionamentos, sem amanhãs, sem ontens, sem nada mais. Apenas cumprir seu destino. Deixou a empresa naquele dia com a certeza que faria uma viagem no dia seguinte. Foi ao cabeleireiro, jogou algumas peças de roupa numa valise, pegou o perfume que sabia o predileto dele e rumou ao aeroporto com o celular desligado. Não queria saber de filhos ou netos ou serviço ou nada mais no mundo. O mundo, naquele momento, era ela. E ele. Desceu do avião com uma tranqüilidade que somente depois foi capaz de avaliar. Ela vinha da certeza que ele estaria lá, e ele estava. Esperando por ela, com olhar de homem e jeito de adolescente, carregando uma pasta de executivo numa das mãos e brincando desajeitado com um pacote cuidadosamente embrulhado para presente na outra. O olhar dele fazendo com que ela se sentisse uma deusa enquanto caminhava ao seu encontro ao mesmo tempo em que também se via adolescente, com o coração disparado, as faces vermelhas e morrendo de medo de tropeçar em algo ou falar alguma coisa despropositada pelo simples motivo de não saber o que fazer naquele momento. Nenhuma palavra foi necessária, simplesmente deram-se as mãos e seguiram para seu destino. Agora ela está olhando para o mar, tragando o cigarro, sentindo o corpo ainda estremecer com a lembrança dos momentos mágicos, brincando com o presente que já brilhava em seu pulso e ouvindo o ressonar tranqüilo do homem que era seu. Era, foi, é... e sempre será. Nada mais importa. Nem mesmo o amanhã.

Ariane

*não é uma delícia "profetizar" algo assim?



 Escrito por Ariane às 23h39
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