Retalhos e Pensamentos


Escolhas

Estou dividida entre serviço, meu pai, minha família, obrigações diárias, aquelas grandes e pequenas coisas que temos que fazer, não importa nosso querer. No meio disto tudo, fora o tudo, tentando me empolgar com os preparativos do casamento da minha filha. Difícil ficar feliz. Difícil não ficar. As coisas se atropelam e, por minha vez, atropelo coisas e pessoas. Coisa das que menos gosto de fazer é experimentar roupas. Quando se trata de roupa pronta, menos mal, mas costureiras e modistas e bordadeiras e tudo isto são, para mim, um suplício. Costumo me concentrar em algum assunto que fico discutindo mentalmente, absorvida por meus pensamentos apenas para não lembrar que estou sendo espetada, apertada, virada, e também, para resistir à vontade de olhar para o espelho e ter a certeza que aquele espantalho sou eu. Numa destas vezes, não deu muito certo a minha tática dispersiva e, na falta de algo melhor para me concentrar, fiquei olhando para a agulha nas mãos da costureira, enquanto um alfinete me espetava a cintura. Fiquei imaginando a função de uma e outro. A agulha, com sua cabeça aberta, disposta a ser invadida pela linha e, usando de seu corpo esbelto e rijo, abrir caminho para que a outra, colorida e molenga, possa cumprir sua missão de dar forma a pedaços de pano. O alfinete, na sua imponência, e pobre e fechada cabeça, permanece em seu lugar, certo de que sem ele nada seria feito. Pensa ser fundamental para a costura, prendendo o tecido no lugar certo para que a agulha e a linha possam finalizar o serviço. Não sabe que a agulha e a linha, unidas, antes de costurar podem alinhavar, fazendo o alinhavo exercer a mesma função do alfinete. Por que não o fazem? Porque o serviço delas é mais importante. Porque o tempo delas é menos disponível. Porque o pobre alfinete, em sua arrogância, não percebe se tratar apenas de um ponto de apoio, de uma ajuda ao nobre trabalho de suas parentas. Concedesse, ele, em abrir a cabeça, e se transformaria numa nobre agulha. Concedesse ele ser maleável, e se transformaria num fio prateado a enfeitar a costura. Porém, em sua pequena e fechada cabeça, sente-se o dono do molde, aquele que lhe dá o primeiro formato e contenta-se com sua função. Pinica a quem se mexe fora dos limites por ele estabelecidos. E assim se faz a costura. Cada um se atribuindo uma importância. Cada um se sentindo indispensável. Cada um se achando imprescindível. Esquecem todos que, sem o corpo a ser vestido, a função de todos é inútil. Orgulho de um. Trabalho de outro. Maleabilidade da outra. Nada serve o trabalho se não é feito para atingir um fim. Um fim coletivo, onde todos se orgulham de todos. Onde as ferramentas usadas, os materiais empregados, os destinatários, os artesãos são, enfim, todos pelo todo. Porque qualquer um que falte nesta escala, fará falta, mas não será insubstituível. Nada é. Nem ninguém.

Ariane



 Escrito por Ariane às 12h45
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Por acaso

Após longo inverno da alma ainda não consegui sair do bloco de gelo que vem me transformando em alguém que nunca conheci. Olho para o espelho e vejo a mesma face. Fecho os olhos e encontro uma desconhecida. O texto abaixo é parte de um longo e-mail que escrevi. Faz parte de erros e acertos, de vivências e alegrias, dores e perplexidades. Quem vem acompanhando minhas palavras neste mais de ano de blog, me conhece o suficiente para saber que penso muito nas coisas... demais até, para uma cabeça tão limitada quanto a minha. Talvez, por isto mesmo, minha sede de saber... de entender  e de compreender tudo o que acontece a minha volta e, principalmente, comigo. Tenho por hábito vestir a pele do outro e isto me causa sofrimento e catarse ao mesmo tempo. Tenho a impressão, e não acredito estar errada, que nada acontece por acaso. Os acontecimentos se dão de uma forma que me fazem imaginar que, se aconteceram, é porque algo eu devo aprender de tudo. Penso que, se as coisas não acontecem do jeito que esperamos, temos que olhá-las de outra maneira e extrair o que era pra ser apreendido. Ainda não sei bem o que devo aprender de algumas coisas que vêm acontecendo na minha vida... talvez baixar minha bola e admitir que não sou quem penso ser. Talvez reconhecer que meu julgamento sobre as pessoas não atingiu o nível de me livrar do sofrimento, que eu acreditava ser capaz. Talvez um pouco mais de humildade para reconhecer que o mundo faz suas regras e eu, querendo ou não, tenho que me submeter. Imagino que tudo o que acontece é para que seja extraída uma lição. Nem sempre sei qual é ela, mas tenho esperança de um dia aprender. E também usar o que não compreendo para tentar evoluir e crescer como pessoa. Talvez eu não devesse falar nada disto. Talvez fosse melhor não pensar em tudo isto. Talvez fosse melhor pra mim, que eu não pensasse tanto, ou pior, falasse tanto. E talvez seja isto que eu devo aprender. A calar. Não sei. Enfim... já falei demais.

Ariane



 Escrito por Ariane às 15h25
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