Aprendendo

Nestes últimos anos venho-me dando conta de que algumas certezas que eu tinha são absolutamente despropositadas. Cresci no seio de uma família cujos ideais sempre foram voltados à integridade, ao trabalho, a viver a vida com dignidade e, principalmente, com amor. Meu pai não tem irmãos, então eu e meu irmão fomos os únicos netos dos meus avós. Meu irmão era o primogênito, homem, detentor de todas as honrarias de sua condição. Eu, a menina, a caçula, a jóia da família. Minha mãe tem apenas um irmão, dez anos mais novo que ela, e por este lado também fui a única neta por toda a minha infância. Cresci acreditando que ser amada era algo natural, ou melhor, eu cresci sendo amada e paparicada e nunca parei para pensar se isso era normal ou não. Para mim, era algo que fazia parte do meu dia-a-dia, assim como comer, dormir e brincar. Quando nasceram minhas primas, as duas únicas que tenho, contava eu com sete anos de idade e transferi a elas o mesmo tanto de amor que havia recebido, e recebia ainda, claro, porque isto era o que eu sabia fazer, era assim que entendia a vida. Recebemos, doamos, acrescentamos e somos parte amada de um círculo de sangue. Talvez, por conta disto, eu tenha passado boa parte da minha existência alienada. Não via maldade em ninguém, confiava em todo mundo, fazia o que devia fazer, o que tinha vontade de fazer e recebia o que faziam para mim com a mesma naturalidade de sempre. Afinal, não havia porque desconfiar que há outros tipos de pessoas no mundo. Esses tipos existiam nos filmes, nos livros, personagens de ficção. Não faziam parte do meu universo. Até o dia em que fui bruscamente despertada para o lado sombrio da vida, das pessoas, do mundo.E assim venho caminhando e aprendendo que minhas certezas cabem em relação a certas pessoas, não a todas. Que a minha confiança eu posso entregar a algumas pessoas, não a todas. Que meu trabalho é valioso para algumas pessoas, não para todas. Que o amor, que entendia como natural, deve ser preservado e entregue a quem possa retribuí-lo. Muitas pessoas, hoje, procuram por aquela menina que fui. Muitas pessoas não entendem a fase de recolhimento e reflexão. Principalmente aquelas pessoas que viveram boa parte da vida comigo. Não sei até onde foi bom acordar do sonho em que vivia. Não sei até onde foi bom ver as pessoas como elas são. Não sei até onde vai me levar a experiência de sair do meu mundo e conhecer outros universos, mas sei que este é um caminho sem volta, que não escolhi, mas sou obrigada a percorrer. Não sou “boazinha”, nem “certinha”, nem “perfeitinha” porque se assim fosse, já não faria parte deste mundo. Estaria usando asas e tocando harpa em algum ponto do paraíso. Tenho um monte de defeitos, um monte de contradições, um monte de falhas, mais um monte de coisas que nem eu mesma sei identificar, mas que são erradas. Porém, de todos os defeitos que tenho – e são muitos – do desamor eu me livrei: continuo transferindo amor e distribuindo amizade a quem me cerca. Só estou ficando um pouco mais seletiva. Descobri que doar, indiscriminadamente, ao invés de trazer outro tanto de volta, pode trazer desconfiança e não aceitação ou retribuição. Isso dói, mas faz parte disto que chamamos de vida.
Ariane
Escrito por Ariane às 17h02
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