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De atos e atos

Na delicadeza do seu toque, a urgência dos meus. Na voluptuosidade do meu contorno, o seu encaixe perfeito. Seu olhar de cobiça é como um toque aveludado. Não há necessidade de mãos e bocas, mas imperioso é seu uso. A cada poro um toque. De mãos, de pele, de língua, de olhos. A cada toque, um passo na construção de uma estrada cujo final é explosão de sentidos. Instinto animal a ser saciado, mas atingida a plenitude somente quando a ele aliado o amor, quando o desejo, o bem-querer, a doação se fazem presentes. Sem igual. Sem precedentes. Sem explicação possível. Momentos em que racionalidades não existem, apenas sentidos em alerta, em descanso, em confiança, em entrega. Corpo e alma. União feita tão somente de corpos, apenas consegue satisfazer necessidades físicas. Aplacar insatisfações. Acalmar iras ou saciar desejos. União de corpo e de alma, comunicação de sentires e desejos e carinhos e amor e confiança e ternura e medos e traumas e tudo o que envolve os seres, é nirvana. É trabalho árduo na construção de dois que podem se transformar em um, em momento sublime que nada tem de animal, de instintivo. Para quem assiste não passa de um ato. Para quem o vive é a plenitude da vida. É o sentir-se fazendo parte de um universo tão extraordinário que poucos são os que têm coragem de penetrá-lo.
Ariane
Escrito por Ariane às 11h10
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Sonhos ou pesadelos?

Estou há anos e anos na Internet. No começo, era bate-papo através de vídeo-texto, depois os velhos 486 seguidos de moderníssimos Pentium 100, com 8 megabytes de memória. Hoje tenho uma máquina que nem sei mais o que seja. Falta voar, talvez. Os PC’s evoluíram e vão continuar evoluindo. Alguns cresceram, outros diminuíram de tamanho, ficaram coloridos, ganharam telas de cristal líquido, de plasma, acessórios cada vez mais sofisticados. É. Tudo parece evoluir. Menos nós. Aliás, acredito na evolução do ser humano, mas não consigo vê-la da mesma forma que vejo carros, aviões, televisores e toda essa parafernália com as quais convivemos. O que está acontecendo com as pessoas? Ou serei eu? Tenho a impressão de estar involuindo. De estar a cada dia me deparando com problemas antigos, de estar me enredando em velhos conceitos, em velhas situações, em dejá-vus que não me trazem saudade alguma. A cada lição aprendida, apreendida, compreendida e praticada, aparecem novos problemas. Ou velhos. Os mesmos? Parecidos? Iguais? Lembro-me de uma aula de Francês, nos meus tempos de ginásio. Eu já usava óculos, já era da turma das primeiras fileiras, já era totalmente concentrada em meus estudos, exercícios e trabalhos escolares. Um dia a professora estava especialmente irritada, sabe-se lá com o quê, e prometendo mandar alunos que não se comportassem para fora da sala de aula. Eu, que já era quieta, nem mesmo me mexia. Mas, até hoje não sei porque, resolvi reaver o lápis que havia emprestado à colega que sentava atrás de mim. Virei-me e lhe fiz um sinal. Foi o bastante. A professora chamou meu nome – vergonha total – e mandou-me para fora da classe. A princípio não acreditei que fosse comigo. Depois, levantei-me e fui saindo, sentindo-me observada por todos e sem nem pensar direito. Nem sabia o que deveria fazer uma vez lá fora. Isto nunca havia me acontecido e eu jamais imaginei que iria acontecer algum dia. Pois bem, aconteceu. Foi naquele dia que aprendi o que é injustiça. O que é revoltar-se com quem lhe aponta dedos e não lhe dá oportunidade de defesa. Foi naquele dia que me libertei de meu silêncio também. E resolvi ser advogada. No fundo, ela, em sua ira, acabou me prestando um favor. Mas, marcou. Nunca esqueci aquele dia. A cada passo que eu dava em direção à faculdade minha determinação de lutar contra as injustiças crescia. E jurei nunca mais ser vítima delas. Os anos passaram e aqui estou, refletindo com pensamentos desordenados, que não consegui cumprir meu juramento. A faculdade eu fiz. O trabalho eu faço. Engajo-me em uma série de projetos, trabalho com a Procuradoria de Assistência, tenho uma cota em meu escritório em que atendo a quem não pode pagar, tento sobreviver dignamente, ensino meus filhos, dou exemplos, tento ser ativa na sociedade à qual pertenço, mas... meu juramento de jamais ser vítima de injustiça não consegui cumprir. E quanto mais passa o tempo, quanto mais me acho uma pessoa melhor, mais me sinto atingida por ela. E quanto mais trabalho, quanto mais atuo, mas me sinto incapaz de extirpá-la. Observando como era o mundo nos meus tempos de ginásio, como está o mundo hoje, percebo que muitas coisas mudaram, melhoraram, ficaram mais eficientes. O ser humano continua o mesmo. Talvez mais informado. Talvez mais capaz. Só o que me parece é que não deixamos de lado nossos instintos. Nossos medos. Nossos traumas. E, todas as vezes que reagimos com sentimentos, e não com a razão, somos injustos e é com injustiça que somos repelidos. Um elo sem fim. Sem começo. Sem sentido.
Ariane
Escrito por Ariane às 19h50
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Simpatias

Domingo de sol. Dia perfeito para sair e olhar o mundo com olhos quentes. Com o coração aberto. Dia dos Namorados. Sempre me pego pensando no significado deste dia. A lógica me diz que é mais uma criação comercial, para aquecer as vendas pré-férias. Claro. Dia das Mães antes, férias depois. O que deve acontecer neste mês de junho que ice as vendas do comércio em geral e não apenas dos produtos típicos das festas juninas, que se resumem a fogos e cardápios específicos?
A véspera do dia de Santo Antônio, o santo casamenteiro, é o mote ideal. Dia dos Namorados. Dia de realizar todas as simpatias ligadas ao mito do santo casamenteiro. E são muitas. Há aquelas bem simples, como escrever nomes em pedaços de papel e colocá-los embaixo do travesseiro. Ao acordar no dia seguinte, basta olhar para qual está aberto e será com este o casamento. Outra é pegar aliança de mulher casada, tirar um fio do próprio cabelo e, presa neste fio, segurar com firmeza a aliança no centro de um copo com água pela metade. Esperar alguns minutos. Se a aliança ficar parada, solteirona à vista. Se a aliança movimentar-se e bater nas bordas do copo, resta contar quantas batidas ela irá dar e que irão corresponder ao número de anos que a candidata deverá esperar para casar. Há os mais assustadores. Uma faca virgem deverá ser espetada no tronco de uma bananeira, à meia-noite do dia 12 de junho. No dia seguinte observar a letra que se formou no caule da planta. Será este o escolhido. Um pouco difícil esta, pois, para quem mora em cidade grande, achar uma bananeira por perto não é tão fácil. As “encalhadas”, aquelas que já estão passando da idade de casar, mas querem desesperadamente um pretendente, chegam a ameaçar o santo. Ajoelham-se perante ele, rezam, mas não deixam de sussurrar, para que apenas ele ouça, que, se ele não lhes providenciar marido, irá ficar sem o Menino nos braços e ficará sozinho pelo tempo que for necessário, para ver o quanto é bom estar só. Outras são mais radicais: tiram o Menino dos braços do santo e o escondem em lugar seguro, e, pobre santo, fica pendurado de ponta cabeça no poço até que se resolva a providenciar marido. E assim, no embalo das simpatias, o comércio pega carona, fazendo com que as que já têm seus pretendentes ao lado, presenteiem o incauto que mal sabe que está ao lado da moça por obra e graça do santo. E, já que a boa educação manda que presentes recebidos devem ser retribuídos, o movimento nas lojas é enorme. Uma boa solução para problemas comerciais usando dos mitos que conduzem as pessoas sem que muitas delas nem mesmo tenham noção do que as movem. E passeio pela cidade observando o movimento, nas lojas, nas bancas de flores, nos restaurantes, nos parques, e, nos dias de hoje, nos motéis, entre divertida e deliciada com tudo isso. Não importa de onde veio a convenção do dia. Não importam os interesses por detrás disto tudo, mas, a julgar pelo movimento, Santo Antônio teve um ano bem puxado. Pobre do santo se tiver esquecido alguém. Provavelmente amanhecerá pendurado em algum poço, sem o Menino nos braços e sentindo na pele o que é estar sozinho.
E depois de ter escrito sobre tudo isto, uma idéia me ocorre: alguém conhece uma simpatia para viúvas? Qual é o santo casamenteiro das viúvas?
Penso e me divirto com meu pensamento. Como a viuvez é condição meio recente, não sei bem quais são os mitos e tradições que a acompanham. Alguém pode me esclarecer?
Ariane
Escrito por Ariane às 11h40
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