Alternâncias

Há algum tempo venho pensando em diferenças. Diferenças de opinião. Diferenças nos gostos, desejos e atos. Diferenças entre o que queremos e o que realmente precisamos. Diferenças entre amar e gostar. Esta última é a que tem ocupado minha mente por muito tempo. Lembro uma ocasião que minha filha, ainda adolescente, tomou uma atitude da qual não gostei. Não gostei da atitude, não gostei do pensamento que a levou a tomar tal atitude, não gostei dela naquele momento. Discutimos e a acusação veio chorosa: ¾ Você não gosta de mim, mãe! Confesso que já esperava esse desfecho e estava preparada para ele. Não era a primeira vez que ela se defendia desta forma e conseguia sempre me fazer sentir culpada por não estar conseguindo demonstrar meu amor e assim, deixá-la pensando que seria mal-amada. Foi nesse dia que resolvi admitir o fato. Ela tinha razão. Eu não gostava dela, mesmo. Não gostava, mas esse fato comporta explicações. Amor, na minha opinião, é sempre incondicional. Quando amamos alguém não há motivo, não há explicação, não há palavras que consigam exprimir ou explicar esse sentimento que está dentro da gente, inundando nosso coração e nos fazendo felizes apenas pelo fato dele existir. Amo meus filhos, sem sombra de dúvida. Amo de maneira plena, incondicional, sem reflexões que façam esse sentimento aumentar ou diminuir, posto que ele não tem medida. Porém, vezes há que eles fazem coisas de que não gosto. Nesses momentos eu não gosto deles. Não gosto do que fizeram e não gosto das justificativas que dão para esses atos. Acredito que a recíproca é verdadeira. Eles me amam, e muito, mas vezes há em que não gostam de mim. Essa diferença, entre amar e gostar é que nos movimenta em quase todos os relacionamentos. Podemos amar, mas podemos não gostar. O amor é perene, existe por si, tem vida própria, não tem medida, não tem justificativa, não tem intensidade. Ele é. O gostar é diferente. Nele, cabem juízos, interpretações, intensidades. É ele que nos ajuda na hora de educar, na hora de discutir, na hora de avaliar erros e acertos. Aquele dia o papo foi longo com minha filha. Se ela entendeu? Não há dúvida que entendeu. Sentir-se amada de forma irrestrita dá-lhe a certeza da identidade. Agir de forma que me faça não gostar dela, naquele momento, dá-lhe a chance de me mostrar que é uma pessoa, independente de mim, é uma personalidade que amo, incondicionalmente, e não gosto, quando faz algo que contrarie o meu senso, a minha visão. E vice-versa.
Ariane
[originalmente publicado em 14/junho/2004 – acredito que seja um complemento de meu texto anterior sobre o que entendo por amor]
Escrito por Ariane às 18h44
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Espiral

Era uma vez...
Assim a história se fez
doce-amarga ilusão
de um dia o entendimento,
o amor e a paixão
transformarem-se em alimento
ao corpo e à alma, sedentos
de todos os sentimentos,
de todas as formas e cores,
de todos os aromas e sabores,
do universo que nasce explodindo,
o alfa, sem tino, infindo.
Era uma vez...
Assim a história se fez
o que era ilusão de um dia
transformou em realidade, magia
o que era paixão, em amor
ao corpo e alma deu pão,
perfumou o ar à volta
e nos tons das faces - felizes -
explodiu em mil matizes
de todas as penas incumbiu-se,
destruiu dúvidas, criou matrizes,
em ômega da dor difundiu-se.
E no girar dos ponteiros, desde a primeira luz,
era uma vez a história, que assim se faz e conduz...
Ariane
Escrito por Ariane às 11h42
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