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Estava no chat da Loba quando o assunto surgiu. Em forma de pergunta: alguém morre de amor? Tentei responder, parei, fiquei pensando, repensando, deu nó no cérebro. A primeira questão que surge se refere ao sentido da pergunta. Morte física ou outro tipo de morte? Tirando aquelas mortes, supostamente por amor, nas quais a própria pessoa chega a um ato extremo, fiquei pensando o que seria morrer por amor. Deixar-se definhar? Sentir tanta dor a ponto do corpo somatizar tudo isto e adoecer? Acredito ser possível. Ou pior, não adoecer, não definhar, viver como sempre, mas com a alma seca. Brilho apagado. Esperança inexistente. A morte física não é passível de retorno, a menos que algum milagre tornasse a acontecer, como Lázaros em retorno à vida. Nunca vi. A outra morte é a pior, morte em vida, mas desta há retorno. É possível reviver. Renascer. Rebrilhar. Continuei pensando nisto e confesso que não me convenci com o raciocínio. Amor? Pois então o amor não é encarado como uma semente que é plantada, mas para que se desenvolva precisa de cuidados? Se não há cuidados, como pode crescer a ponto de matar? Seria amor ou obsessão? Um desejo tão intenso que cega seu portador a qualquer outra coisa, que o leva à imolação de seu próprio corpo ou ao apagar da alma? Então surgiu outro pensamento: e quando há reciprocidade, mas há também impossibilidades? É muito fácil dizer que não há coisas impossíveis, que cada um pode fazer o seu destino. Não concordo. Como se pode desenvolver um amor se para isto é necessário uma luta contra todo o sistema em que se está inserido? Alguém vive apenas de amor? Apenas com o amor? Apenas com o objeto deste amor? Alguém vive bem sem toda a estrutura em que está inserido? O amor sobrevive a tudo isto? Alguns vão responder que sim, que se é lá que está a felicidade é lá que temos que buscá-la. Em alguns casos, concordo. Quando se trata apenas de ajustes. Quando não se tem que lutar contra o sentimento de outras pessoas, aí incluídos filhos, pais, irmãos, de ambos os lados. O que nos acontece que nos faz colocar todo o nosso bem estar, físico e emocional, em algo impossível? Será que é justamente a impossibilidade que nos aproxima? Porque assim não temos responsabilidade pela nossa infelicidade, responsável é o mundo, não? Por que há tantas histórias de amores impossíveis? E por que na maioria das vezes que alguém tentou viver esse amor, dando de ombros a todo o resto, não foi bem sucedido? Muitas perguntas. Não tenho as respostas. Há amores impossíveis, há amores possíveis, mas não realizados, há amores unilaterais que sobrevivem até mesmo a falta de cuidados, há amores que são vividos em sua plenitude, há amores que são partidos ao meio pela mão do destino, há todos os tipos e possibilidades. E por haver todos estes tipos e possibilidades, então, talvez, seja possível responder afirmativamente a questão. É possível, sim, morrer de amor.
Ariane
Escrito por Ariane às 21h28
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Nascente

O querer começa manso, feito nascente de rio,
borbulha além da terra, procura, faz sua trilha
por entre pedras e areias, por toda sorte de espinhos,
aflora timidamente, descrente que veio à luz,
não lhe importa a natureza - é a ela que pertence -
segue sua sina de procurar a vazão,
correr e sendas abrir, sem sentido ou direção,
juntar-se a nova nascente , aumentar a cada dia,
brotar cada vez mais forte, transformar-se no riacho,
depois no rio caudaloso, desimportar-se da sorte,
seguir seu caminho de vida, dar guarida a quem o habita,
desembocar no oceano e, ao contrário da morte,
suspirar o encontro, acalentar a imensidão,
descansar de toda luta, olhar para o passado
e lembrar de cada passo, cada gota que o criou,
o que era simples querer, em amor limpo e profundo
transformou e virou mundo.
Ariane
Escrito por Ariane às 20h13
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Destinatário:

Transfigurados pensamentos,
- eu sou, eu quero, eu posso -
por ti são revolvidos
em destinos complicados.
Já não sei mais o que sou,
o que quero está bem claro,
meu poder não tem alcance,
vejo o mundo de relance
nos olhos que quero estar,
no ruído do teu gozo,
no cheiro da tua pele
tatuada em fantasia.
Saber que o tudo não basta
- quero mais de você -
alfa–omega, sem desvio,
percorrer todo o caminho,
estar ao lado é tão pouco,
nos meandros do teu corpo
descansar o que é matéria,
no teu sentir ser presente,
ser o ar que tu respiras,
inalar você inteiro.
Se for por paixão, desdigo,
no toque do azul, revivo.
Ariane
Escrito por Ariane às 11h18
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Aventura

Ontem fui às compras. É, eu sei que alguns vão estar sorrindo com a antecipação do dar e receber presentes nesta época. Outros estarão torcendo o nariz para o que consideram mercantilização da data e invenção do comércio. Já eu, simplesmente adoro dar e receber presentes sem muito me perder em filosofar porquês ou quandos. Em verdade prefiro dar, gosto de tudo o que envolve dar um presente. A procura da coisa ideal, se bem que devo confessar não ter muita imaginação, todas as vezes que quero presentear alguém penso logo num livro. É quando o bom-senso – uauuu, será que tenho isso? – acode e sou obrigada a admitir, muito a contragosto, que muita gente simplesmente odeia ler. São pessoas que se dizem modernas: assistem o Jornal Nacional, lêem Caras e Veja – a Veja é só uma tentativa de mostrar que lêem coisas “sérias”, claro - têm acesso a todos os canais pagos – desconfio que gostam mesmo é do Faustão ou do Programa Silvio Santos, ai, acho que estou sendo maldosa. Mas, dizia eu, adoro presentear e para achar o presente ideal acabo me deslocando por esta cidade e todos os seus templos de consumo. Será que serei considerada saudosista se disser que já houve tempos melhores? Será que minha memória anda brincando comigo ao recordar que já tive mais prazer ao fazer isto em tempos passados? Talvez sim. Talvez não. O que ocorre é que deixei de comprar em lojas localizadas nas ruas de comércio há muitos anos. Desde a inauguração do Shopping Iguatemi, aqui em São Paulo, esqueci o que é fazer compras nas ruas. Andava deliciada pelos corredores amplos. Adorava a gentileza dos vendedores. O ambiente das lojas. O sossego e a tranqüilidade da segurança proporcionada pelo local e a educação dos freqüentadores. Sim, acho que era este o fator que mais me encantava. Fazia compras em um ambiente acolhedor em que as pessoas se esmeravam em gentilezas, desde o porteiro, passando pelos vendedores e culminando com os próprios freqüentadores. Ando numa fase de recolhimento, muito pensamento para poucas coisas que valham realmente a pena, então decidi que fazer compras seria um bom motivo para sair da introspecção e tentar um pouco de diversão. Bem, engano puro. Este “decidi” teve o peso enorme da insistência de minha filha para que a acompanhasse. E lá fomos nós, às compras. [cont.]
Escrito por Ariane às 10h53
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[cont.]
Começou pelo trânsito para chegar até lá. Congestionamento devido ao excesso de veículos, mas não só devido a isto. Carros parados em fila dupla eram os maiores causadores do trânsito lento. Chegada no estacionamento do shopping, a procura por uma vaga para estacionar e, quando achada, um espertinho qualquer surge do nada e entra na vaga que você, pacientemente, esperou surgir. Bem, outras vagas surgem e estacionamos. Fila para o elevador. Quando ele chega, sabe-se lá o que provoca na mente das pessoas, mas a fila desaparece e quem está na frente é literalmente atropelado pelos que estão atrás, num empurra-empurra digno do Metrô às 6 horas da tarde. Tudo bem, espero outra viagem. Enfim, a chegada às lojas. Cheias, de coisas, de gente, de humores que passam por todas as escalas: da impaciência à ira total. Pausa para o almoço, a procura de um local para fazer uma refeição. Praça de Alimentação. Uma simples olhadela me convence que o ideal é fugir dali. Minha filha resmunga que a economia que estou fazendo nas compras vai se perder na conta do restaurante ao que argumento que preciso de uma pausa para suportar o resto da tarde nas compras, que já estou desistindo de encarar. É quando começo a fazer aquilo que tinha decidido não fazer: pensar. Pensar em que mundo estamos vivendo, o que está levando as pessoas a esta competição maluca, estressante, aviltante. Competem por uma vaga, por entrar no elevador, pela atenção de um pobre e atarantado vendedor, pela rodela de tomate no self-service, tudo é competição e, pior, nada do Colbertin e seu lema que o importante é competir. A competição parece ser pela vida, pela sobrevivência. Lei da selva. Onde está a educação? As pequenas gentilezas? E tudo isso numa simples saída para compras de Natal, mas que vem ocorrendo todos os dias, em todos os lugares. Este é o mundo em que estou vivendo? Esta é a evolução? Só me resta a velha frase: Parem o mundo! Quero descer!
P.S.: Notícia de hoje, veiculada na Folha de S. Paulo: Rapaz é morto após discussão em ônibus O estudante universitário Clayton Eduardo do Nascimento, 21, foi morto anteontem, dentro de um ônibus, após discutir com dois homens que estavam na vaga para idosos e não cederam o lugar para uma passageira. Segundo testemunhas, o episódio ocorreu na avenida Washington Luís, na zona sul de São Paulo, por volta das 21h. O jovem teria comentado que "aquilo era um absurdo". Uma outra mulher deu o lugar. O rapaz continuou comentando o fato com o cobrador. Um dos homens, então, começou a espancá-lo. Em seguida, o outro esfaqueou o peito e o rosto do jovem, que morreu na hora. Os criminosos fugiram. (DA REPORTAGEM LOCAL) Ariane
Escrito por Ariane às 10h50
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