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Simbiose

Dentro de mim estou eu,
este ser que é coisa,
esta coisa que é algo,
este algo que é alguém,
este alguém que é nada
perante o infinito.
Dentro de mim há você,
esse ser que é objeto,
esse objeto que é desejo,
esse desejo que tem alma,
essa alma que é sua
que esbarra na minha,
se confunde,
e já não sei mais
quem está dentro de mim
se eu, você
ou nós.
Ariane
Escrito por Ariane às 16h14
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Esperando

Há dias em que algo desperta lembranças. Não sei bem o que fez isso, hoje, mas fiquei pensando no tempo da minha infância quando as brincadeiras eram as obrigações mais prementes e nada havia que trouxesse preocupações ou turvasse o olhar que cintilava a cada grito, a cada folguedo, conhecido ou inventado na hora. Assim passavam dias e horas e dizer que minha infância traz saudade é pouco. São recordações boas demais que repousam em minha mente juntamente com aquela inocência que está guardada em algum canto. Os dias eram de corre-corres e pouca importância se dava ao fato de estar pisando em terra e sujando roupas e pés. Como tudo o que é bom tem hora para acabar, quando o relógio batia as 17 horas, eu já estava pronta a largar tudo o que estava fazendo porque mamãe aparecia na janela chamando para o início de outro ritual. O banho bem tomado e esfregado. Cabelos lavados e penteados com capricho. Vestido cheio de rendas, laços e fitas, meinhas soquete e sapatinhos de verniz. Talco, para ficar perfumada, porque perfume não era coisa de meninas, apenas mulheres o usavam. E, assim, minha mãe ia estabelecendo hábitos e, pior, conceitos. Primeiro eu, depois meu irmão. Os dois arrumados, hora de descer as escadas e esperar papai chegar do serviço. Quando ele apontava na esquina meu irmão tinha permissão para sair correndo ao encontro dele. Eu não. Era uma mocinha, tinha que ficar sentada no degrau da escada, bonitinha, esperando papai chegar como convém a uma menina educada. E eu, claro, me comportava exatamente como mamãe exigia. Nada de arroubos. Nada de sair correndo, eu tinha que aprender a esperar. Aprender a controlar a impaciência, principalmente quando via o embrulho de presente nas mãos do papai, e mesmo assim, tinha que ficar comportadamente sentada, à espera. Fico pensando nisso hoje. Fui criada num tempo em que meninos tudo podiam. Aprendiam que mulheres esperam e homens são esperados. Hoje, isso mudou, e bastante, mas ainda carrego isso. A espera se faz de outra forma, mas continuo sentada no degrau da escada, não mais esperando, mas exercitando a paciência, a compreensão. Enquanto esperava, aprendi a pensar, ver, analisar. Enquanto meu irmão corria, eu observava. Sabia quando meu pai estava cansado, triste, alegre, apressado. Conhecia cada expressão de seu rosto, cada passo. Sabia quanto tempo ele demoraria a chegar até onde eu o esperava. Aprendi a ser paciente. Se concordo com isso tudo? Claro que não. Acredito que precisamos aprender muito, ainda, sobre como criar nossos filhos, de ambos os sexos. E, como tudo o que é ruim deve ter um lado bom, isto tudo talvez explique minha forma de resolver meus problemas. Antes, eu sentava e esperava. Hoje, eu sento e penso, sem pressa. A solução sempre aparece.
Escrito por Ariane às 19h34
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Reconstrução

Chegou feito furacão,
arrancou tetos de vidro,
tirou máscaras, extirpou sentidos,
devastou represas,
passou rasgando, semeou cicatrizes,
derrubou concretos e pontes suspensas,
perturbou certezas,
instaurou pânico,
desarrumou gavetas,
relembrou pesadelos e fez brotar
inseguranças.
Chegou feito turbilhão,
despertou rebelião
e em suas espirais
carregou receios,
lavou preconceitos,
removeu angústias,
usou de lágrimas e
fez-se arco-íris,
sol de existência.
Derrubou, arrasou, passou,
voltou como oceano a soprar,
reconstruiu sobras,
deu forma perfeita
ao devaste, me transmudou em
campo fértil para novo ciclo.
Chegou fúria, voltou brisa,
ficou eterno.
Ariane
Escrito por Ariane às 01h58
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Férias

Resolvi postar novamente, nestes feriados, alguns textos dos quais gosto muito. Eles estão postados lá no início do blog, em sua forma original. Este foi postado em 16 de abril, deste ano.
Praia. Férias. Corpos suados, calor abrasador. Um estalo:
— Vamos comprar melancia !! Podemos colocar gelo em cima dela, vai ser uma delícia !!
Um olha para o outro e mensagens são trocadas, aceitas, ficaram aguardando a reação dos outros à melancia.
— Ah não, não vou, diz o homem. Ninguém me tira daqui, não vou sair da rede por nada neste mundo.
— Vão vocês, diz a outra. Fico por aqui lavando meus cabelos.
Ainda reclamaram um pouco “tudo sobra para nós” enquanto se encaminhavam para o elevador. Em silêncio. Tudo o que faziam quando estavam a sós era em silêncio. Olhavam um para o outro, tocavam-se de leve, caminhavam lado a lado apenas apreciando a proximidade de seus corpos. Ouvindo pensamentos.
Entraram no supermercado, escolheram a melancia mais bonita, mais vermelha, que convidava a um mergulho em suas águas refrescantes. Ela pensou: preciso disso. Preciso refrescar-me. Aplacar a sede. E ele olhava para ela com aqueles olhos fundos, misteriosos, cheios de mensagens que ela sabia interpretar: Vamos aplacar nossa sede. Vamos.
Passaram pelo caixa e saíram para a rua carregando a fruta para o destino a que nenhum dos dois queria voltar. Quando olharam para frente, o viram. Um mar lindo, brilhante, ondas perfeitas, numa tarde perfeita. Ao longe um navio saindo do porto e dirigindo-se para alto-mar. Os dois pararam e ficaram observando. A voz dele veio de longe, um sussurro rouco e abafado que ela mais sentiu do que ouviu:
— Você iria comigo? Pegaria esse navio e partiria comigo?
— Sim. Sim. Mil vezes sim. Mas qual seria o destino?
Ele calou-se. Não havia destino. Não haveria amanhã.
Voltaram para o apartamento.
Ariane
Escrito por Ariane às 20h01
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Tempos Modernos

Resolvi postar novamente, nestes feriados, alguns textos dos quais gosto muito. Eles estão postados lá no início do blog, em sua forma original. Este foi postado em 09 de abril, deste ano.
Travei meu primeiro contato com teclados e telas através de um vídeo-texto que surgiu em casa. Há muito, muito tempo.
Depois dele, minha conta telefônica nunca mais foi a mesma.
Brinquei um pouco com ele, mas logo cansei e ficou lá, o pobre, esquecido num canto qualquer.
Logo em seguida, veio outra novidade.
Um PC. Novinho em folha. Com aquela tela pretinha, letras verdes e um driver de disquete que, tenho certeza, meu filho tentaria, hoje, encaixar um CD e não iria entender bem pra que um driver daquele tamanho.
Logo cansei daquela geringonça também, e cuidava de tratar da minha velha máquina de escrever com mais carinho ainda.
Até que um belo dia meu irmão surgiu com a novidade: um IBM Aptiva 486. Última geração. Coisa de doidos.
Olhei pra ele com desconfiança e um pouco de medo e no mesmo tempo que olhava pra minha máquina de escrever pressentindo que ela estaria entrando nos seus merecidos dias de descanso.
Mas ele me conquistou. Comecei a explorar seus recursos num misto de receio e fascinação. O Word transformou-se numa das maravilhas do mundo moderno e eu estava feliz com o maravilhoso 486.
Mas, como tudo, ele foi ficando ultrapassado e, já picada pela dependência da máquina, comprei um maravilhoso Pentium 100, montado em Xing Ling com genuínas peças made in Paraguai.
Funcionava!! Era rápido, não travava. Maravilha !!
E então, surgiu a Internet.
Pobre Pentium 100, de maravilhosa máquina que resolvia todos os meus problemas de texto, virou uma geringonça detestável que não conseguia acompanhar minhas crescentes necessidades de navegação. [necessidades?]
Nesse meio tempo meu filho cresceu.
Acabaram-se meu dias de entendida em PC´s.
Na verdade nunca entendi nada de nada, mas com os papos dele percebi que meu nada era ainda menos que nada.
Comecei a “precisar“ comprar cabos, placas-mãe, placas de som, de vídeo, o diabo a quatro, que eu nunca soube estarem escondidas dentro daquela caixa que chamavam de CPU. E tive um monte de CPU´s sem nunca ter me preocupado em saber que aquela caixa enorme, que só atrapalhava, tinha esse nome.
Minha pobre máquina de escrever virou uma peça de museu, mas que ocupa seu posto em cima de uma velha escrivaninha e desperta curiosidade e comentários dos amigos dos filhotes. Alguns deles, totalmente dispensáveis.
— Ei, tia, de que século é isso?
— Isso funcionou algum dia? Pra que servia?
Escrito por Ariane às 02h50
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