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Pra não dizer que não falei de amores

Resolvi postar novamente, nestes feriados, alguns textos dos quais gosto muito. Eles estão postados lá no início do blog, em sua forma original. Este foi postado em 14 de abril, deste ano, quando o blog tinha apenas 12 dias.
Estavam sentados um ao lado do outro em confortáveis poltronas de frente para a TV, que estava ligada falando para o vento e mostrando imagens a dois pares de olhos desatentos, que, apesar de não estarem querendo, olhavam para ela. A tensão era tanta que não sabiam como conseguiam agir, falar, fazer qualquer movimento, sem que o marido de uma e a mulher do outro percebessem o que estava acontecendo. Os braços dos dois displicentemente soltos nos braços das poltronas faltando milímetros para se roçarem numa carícia tão desejada que era possível ver as faíscas pulando dos poros de cada braço que, apesar do desejo quase angustiante, mantinham-se imóveis.Olhos na TV, todos assistindo à programação daquela tarde de domingo, um janeiro quente, tão quente que a brisa havia se escondido do sol, deixando aquele ar de coisa parada que, no mesmo tempo em que torna a tarde modorrenta, aguça sentidos e desejos incontidos e inconfessáveis. “Vou dormir” anuncia o marido. Foi um choque para ela ouvir aquela voz. Veio de outro mundo. Um mundo onde aquela voz não cabia mais. “Sim, querido, vá. Te acordo com um café, mais tarde”. Vá, pensava ela. Vá e me deixe, não percebe o que estou sentindo? Não percebe essa tensão? Não percebe que estou sedenta de paixão? Não. Claro que não. Não é para perceber uma vez que a paixão, o desejo, a tensão, não é a ele dirigida e sim ao homem que está sentado a seu lado. A mulher, a outra, que na verdade era a mulher dele, mas na cabeça da apaixonada, era a outra, começa num tagarelar sem fim e acaba por tirar da bolsa uma corrente com um símbolo pendurado. “Veja o que compramos para você. É um mantra de amor”. [continua]
Escrito por Ariane às 20h00
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Ela demora a entender. Compramos? Amor? Olha para a mulher com surpresa, desvia os olhos dela e olha para ele. Sim. Está lá. Todo o amor. Não é paixão. Não é apenas paixão. Amor. Explodindo em estrelas, saindo pelos olhos dele, inundando a sala de luz. Uma luz mais forte que aquela do sol de janeiro. Mais intensa. Mais brilhante. Meu Deus, como ela pode não estar vendo essa luz? Mas a mulher dele não vê. Há luzes que são tão especiais que apenas seres especiais podem vê-las. Somente os seres que estão vivenciando o mesmo estado, a mesma vontade. “Obrigada. Linda a corrente. Lindo o mantra”. Sabe que falou, sabe que usou as palavras adequadas, no tom de voz que deveria ter usado. Tudo está absolutamente normal. Nada que ela, a outra, pudesse notar Mas ele notou. Notou a voz trêmula. Notou a emoção com que ela olhou para o símbolo do seu amor por ela. Notou a dificuldade com que ela tentava prender a corrente em seu pescoço, que a esta altura já apresentava gotículas de suor, a despeito da pele que estava fria. Reações exageradas do corpo dela, que ele sentia no seu corpo, como se estivessem unidos num só sem que, no entanto, estivessem ao menos se tocando. A mulher, a outra, decide que quer tomar um sorvete. “Vou descer, comprar um sorvete. Alguém quer algo?” Sim, ela grita. Um grito que fica apenas na sua mente. Quero. Quero que você vá. Demore bastante. Tome 1, 2, 10 sorvetes. Encontre uma amiga, conhecida, bata um longo papo com ela. Nos deixe aqui. Apenas nós. “E o seu marido dormindo”, diz uma voz que ela cala com o ardor dos inconseqüentes. Ele não consegue responder. Apenas meneia a cabeça numa negativa ao sorvete e numa delirante felicidade pela oportunidade surgida sem que ninguém tivesse dado um passo em direção a ela. Ordem dos céus. Das estrelas. Do destino. Ela foi. Os dois continuaram estáticos, imóveis por alguns segundos após a porta bater, ouvindo o ressonar do marido no quarto ao lado. Então, olharam-se. Nada disseram. Não havia nada a dizer. Nunca haviam se tocado antes. Sempre haviam feito amor com os olhos, com os gestos, mas nada havia sido dito até então. Os braços, que ainda estavam distantes, aproximaram-se até se tocarem. Um frêmito percorreu o corpo dos dois. Naqueles braços, naquele toque, foram trocadas todas as juras de amor. Foi sentido todo o desejo que pulsava, tão forte que a impressão que tinham era que o mundo não existia mais. Apenas eles. Apenas aquele toque. Então ele aproximou sua face da dela. Delicadamente pegou a corrente que descansava em seu regaço. Beijou o símbolo do amor. Selou a união de almas e espíritos livres, presos em corpos presos a outros corpos. Arriscaram a troca de um olhar e afogaram-se nos olhos um do outro. As bocas se aproximaram e naquele beijo trocado fundiram suas almas, muito mais que qualquer outro ato que pudessem praticar. Fundiram suas carnes, seus espíritos, seus desejos. Jamais ela vai esquecer aquela tarde. Jamais ele vai viver outro amor.
Ariane
Escrito por Ariane às 19h53
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Horas

Girando espaço, longas horas,
a espera presente na ausência
preenchida que é, só com sinais,
cheiros, sons e cores.
Sentidos repletos que param
tempo, ignoram espaço.
Eternidade em segundos
que efêmeros se fazem
quando preenchidos por ti,
e se tornam perenes
no vão que deixas.
Pare o passo, as areias
e fique.
Ariane
Escrito por Ariane às 23h33
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Onde?

Em que profunda vala caiu?
Onde está que não responde,
não te sinto nem pressinto,
não vejo, apenas sei que respiras.
Onde estão seus pensamentos?
Onde está seu tino que não descortino,
não sei e não adivinho,
procuro, e sei que se mostra, no escuro.
Onde está seu sentimento?
Onde está o arrepio, o calor e o frio,
não pergunto para saber,
pelo querer questiono, vasto mundo é você.
Ariane
Escrito por Ariane às 22h35
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Certezas

Se quero, quero muito,
se não quero, estou mentindo,
se concordo, sou falsa,
se discordo, sou do contra,
se afirmo, duvidam,
se duvido, confirmam,
se descrevo, estou sonhando,
se sonho, devo acordar,
se racionalizo, devo sonhar,
se gosto, não tenho gosto,
se desgosto, não tenho amor,
se amo, estou maluca,
se não amo, não sei viver,
se vivo, vou morrer,
se morro, não sou ninguém,
se recordo, devo esquecer,
se esqueço, devo lembrar,
se lembro, quero de novo,
se repito, sou insaciável,
se me eximo, sou indiferente,
se me importo, sou intrometida,
se faço, fiz errado,
se acerto, obrigação,
se calo, devo dizer,
se fico, tenho que ir,
se vou, devo voltar,
se insegura, tenho que crer,
se creio, é em você. Ariane
Escrito por Ariane às 20h16
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Fome

Correndo riscos, deixando acontecer,
covas abissais, sentimentos jogados,
corpo lanhado em chagas do existir,
doces e ásperas cicatrizes.
Tolhido o sentir, vivo o querer,
não sei ser menos,
não posso ser mais.
Aluído ânimo, reanima a luz
contida em essência tua,
por mim sorvida em gotas,
de amor.
Ariane
Escrito por Ariane às 20h10
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Indecisão

Quanto escondes e desvelas,
sentes e encobres.
Intuição das ondas
que vêm e vão
me confundem e velam
sentidos e imaginação.
Desnuda o verbo e o verso,
clareia o chão,
me mostra a via sagrada,
profana do teu sentido.
Imagem do suplício,
revela e não traz alívio.
No querer consentido,
roubada a paz do arbítrio.
Ariane
Escrito por Ariane às 10h38
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