Retalhos e Pensamentos


Imprecisão

No compasso ou na ampulheta

passos, sons, tempos.

Da precisão dos navegantes

a posse do poeta a precisar

necessidades.

Da precisão das palavras,

preciso eu.

Por elas

torno-me imprecisa,

onírica ou real.

Passam compassos,

pausas e areias,

tempos sonoros e letras.

Nada é preciso,

e tudo é precisão.

Ariane



 Escrito por Ariane às 14h50
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Ô dia!

Ando meio cismada, pensativa, reflexiva, cheia de serviço e coisas pela metade, que não dependem de mim para que tenham seu término. Enquanto fico nesse limbo, as idéias não param e, certas ou erradas, são as que me ocorrem.

Cheguei ao escritório já quase no final da manhã vinda de um sem-número de coisas que tinha a resolver na rua. Não gostei da expressão do meu povo, estavam todos meio taciturnos, dizendo aquele bom-dia maquinal que não é da natureza deles. Estranhei, mas não lhes tiro, nem tenho esse poder, o direito de levantarem de lua virada. Todos temos nossos dias de mau-humor, pensei. Havia um recado para mim: “Ligação do Dr. Fulano de Tal, às 9 horas, ele aguarda seu retorno.” Liguei e então fiquei sabendo da história, aquela que estava turvando expressões por aqui. Vamos à ela. [continua]



 Escrito por Ariane às 15h34
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[continuação]

Ele ligou porque queria uma ajuda para a solução [?] de um problema. Não é caso de sua especialidade e precisava de alguns esclarecimentos.

Uma garota, por volta dos 14 anos de idade, está internada em um hospital, há 5 anos, dependendo dos cuidados do nosocômio para continuar viva. Vítima de uma doença incurável, só lhe é possível alguma qualidade de vida se lá permanecer. O pai é portador de câncer e está internado em outro lugar, em estado terminal. A mãe, também portadora de câncer, mas ainda em condições de se locomover. Os avós, já em idade avançada são os detentores do pátrio-poder em relação a garota, titulares de um plano de saúde que lhes garante a tranqüilidade no cuidado com a neta. Garante? Tranqüilidade? Pois bem, a seguradora decidiu que já gastou demais e está pressionando os titulares do plano [avós da garota] para que a tirem do hospital sob pena de cancelarem o contrato de seguro.

Não quero, aqui, discutir saídas jurídicas [elas existem, mesmo que muitos não creiam nelas] ou a questão social.

O conhecimento do estado da garota e tudo o que a envolve foi o que motivou a expressão das pessoas, percebida por mim assim que cheguei. Alguns vão perguntar: mas vocês não sabem que casos assim existem aos milhares? É claro que sabemos, como todos sabem, mas ninguém deixa de viver para ficar pensando nesses casos o tempo inteiro, sob pena de sucumbir ao peso dos pensamentos. O que ocorre é que, quando eles nos chegam às mãos, é o momento em que nos envolvemos com eles. Não dá para ignorar, deixar de sentir e tentar resolver. Não dá para não pensar que o dinheiro move o mundo, ele é necessário, não se toca negócio algum sem ele, mas até que ponto as pessoas são capazes de descer para ter cada vez mais? [Como no caso da diretoria dessa seguradora que resolveu que já gastou demais.]

Isso me leva a outros caminhos: como posso perder tempo e neurônios me incomodando com coisas menos importantes que este caso? A resposta é óbvia. Tenho minha vida e esse fato é algo que veio fazer parte dela também e, como todas as vidas, a minha é feita de fatos alegres, tristes, importantes ou não, resolúveis, simples, complexos...vida, enfim, que agradeço todos os dias não ser a que eu quero, mas é a que posso suportar.

Ariane



 Escrito por Ariane às 15h32
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Caminhada

Temos histórias de vida. Todos nós. Algumas mais tranqüilas, outras cheias de voltas e reviravoltas. Amores, tragédias, encontros e desencontros, alegrias e tristezas, ganhos e perdas. Ninguém caminha por essa estrada incólume a acontecimentos que, por um motivo ou outro, de uma forma ou outra, acabam por modificar o rumo que pensamos ser certeiro no início consciente da nossa estrada.

Se alguém tivesse me dito, há algum tempo, como estaria vivendo minha vida hoje, eu teria duvidado, e muito.  Acredito que isso acontece com a maioria das pessoas. Se olharmos para trás, veremos que o caminho percorrido foi tão cheio de sobressaltos que não nos permitiu nem mesmo parar para pensar, apenas nos impeliu para frente. Sempre à frente. Talvez a caminhada de algumas pessoas tenha sido mais amena, mas não creio que alguém possa dizer que a vida, hoje, é exatamente como pensou, um dia, que seria.   Uma das coisas inimagináveis em meus tempos de criança, por mais que eu fosse sonhadora, seria estar sentada aqui, no meu escritório, escrevendo algo para alguém, que não seja eu mesma, ler. Essa vida que muitos chamam de virtual, mas prefiro encarar como apenas mais um meio de comunicação entre seres, jamais foi sequer vislumbrada por mim. A criança cresceu, mas ainda existe guardada em algum canto, talvez arquivada em alguma caixa – talvez rosa, talvez cinza, talvez trançada em fios transparentes – e transformou-se numa mulher que ainda não perdeu a capacidade de sentir-se perplexa. Ainda bem.

Ariane



 Escrito por Ariane às 19h55
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Do amor

Ele é calado, calmo, comportado,

é falante, intenso, elegante,

doido, doído, completo,

único, múltiplo, variado.

É fogo e gelo, presente, ausente.

Não importa o tipo,

não importa o tempo,

existe por si.

Não comporta explicações,

sensações apenas.

Arde e queima, adoece,

cura e anima,

revoluciona, traz a paz.

É buscado, procurado,

perdido, encontrado.

É parte de nós,

repartido, inteiro, doado.

Tem objeto, não tem motivo,

não mata, mantém vivo,

apaixona, dilacera, completa.

Esvazia.

Depende...

Depende de um, de todos.

Somos únicos,

peças independentes,

fragmentos,

mosaicos coloridos

de vida.

Ariane

 

Escrito após ler o texto postado hoje pela Loba http://lobamulher.blog.uol.com.br/



 Escrito por Ariane às 10h51
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Incerteza

Trabalho árduo,

longos dias, perigos latentes,

pensamentos esparsos

concentrados na lida,

esquecendo de si.

Ferida.

 

Natureza, a humana,

Descrente, às vezes,

em redomas, gentil.

Atingindo a beleza,

relembrando a alma.

Sentida.

 

Mágoas e dores

em si concentradas,

dissabores,

olhos atentos

seguindo sua estrada,

encontrando alento.

 

Nada lhe falta

mas seca lhe implora

a alma:

deixe-o entrar.

Ele vem, se instala

sem licença, nem louvores.

 

Se manso, sereno,

restaura, vida

esperança, certezas.

Se...

Ariane



 Escrito por Ariane às 10h08
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