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Fantasia

Sinta meu hálito perfumado,
cálido sabor de desejo.
Toque minha pele,
desfaça-me em pedaços,
a cada toque,
a cada sensação.
Dissolva-me.
Me faz quebrar
em fragmentos de pura
feminilidade.
A cada toque, em cada poro,
em cada gota de suor do meu corpo,
esteja presente sua dominação.
Prostração.
Desejo incontido, intenso.
Tão intenso que nada o tira do mundo.
Seu mundo,
criado em fantasias.
Fantasia sua,
realizada em mim.
E, após seu desejo
ter desconstruído meu corpo,
reconstrua a mim, inteira,
no seu abraço de amor.
Ariane
Escrito por Ariane às 15h19
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Fundo de Garantia, garantia?

Hoje acordei bem cedo. Sabia que seria um “daqueles” dias. Primeiro, teria que procurar um documento. Sou virginiana, metódica e organizada, mas também sou advogada, portanto, sabedora da importância que determinados documentos têm. Não importa a idade. Minha ou deles. Precisava ter em mãos todos os meus certificados de cursos e diplomas.
Isso foi fácil. Todos juntinhos, bonitinhos, arrumadinhos, dentro de uma caixa-arquivo. E meu PIS, onde estaria o número do meu PIS? Puxei pela memória e pelo meu senso de organização. Estaria na minha carteira de trabalho, óbvio! Então, a carteira estaria junto com meus documentos daquele tempo em que eu trabalhava como empregada. Que ano foi isso? 1976? 1978? Não lembro, mas foi por aí. Peguei a tal caixa. Nada!! Onde estaria minha Carteira de Trabalho? Cadê meu PIS?!?!! Respirei fundo, tomei um café, acendi um cigarro e fiquei pensando onde eu teria arquivado esse documento. Peguei caixas e mais caixas, abri uma por uma e me perdi na minha história. Esqueci do tempo, divaguei em papéis, cartas, cartões, fotografias, diários. Meu Deus!! Quanta coisa guardada em caixas! Vida arquivada.
Despertei do devaneio quando lembrei que estava sendo esperada no escritório. Liguei pra lá.
¾ Jô, estou atrapalhada procurando um documento. Não posso sair de casa antes de achá-lo. Se houver necessidade liga aqui pra mim, tá?
E ela, sempre eficiente: Está bem. Ligarei. Está procurando o quê? Não sei se consegui esconder o início de pânico na voz: ¾ Minha carteira de trabalho! Acredita que já tive uma?
E ela, com aquela voz calma que por vezes consegue me deixar nervosa: ¾ Carteira de trabalho, doutora? Seria aquela que a senhora me deu para arquivar e recomendou que estivesse junto com todos aqueles seus documentos que a senhora talvez precisasse um dia?
[continua]
Escrito por Ariane às 17h32
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Não me detive a pensar no fato que “eu” mandei arquivar e que “eu” esqueci completamente haver mandado. Peguei o número do PIS, e fui cumprir a segunda parte do que me havia determinado a fazer hoje: tentar sacar o saldo do FGTS do meu falecido marido. Tentar, é claro. Estava com minha caixa pink, enorme e escandalosa. Dentro dela, todos os documentos que pude recolher do marido. Bem, pensei que estivessem todos. Faltou a certidão de batismo. Claro que não importa se a família o batizou ou não, mas quando o funcionário da Caixa Federal percebeu que não faltava nada ficou um pouco decepcionado. Não estão acostumados a atender as pessoas logo na primeira vez, não é? Há sempre algo mais a pedir. Enfim, fiquei firme no meu lugarzinho, na fila, claro, até que , depois de 63 minutos, consegui chegar ao balcão de informações.
O diálogo que se seguiu foi surreal:
¾ Boa tarde, senhora. Pois não?
¾ Vim retirar o saldo do FGTS do meu marido.
¾ Sinto muito, senhora, mas ele terá que vir pessoalmente.
¾ Impossível, moça, mas tenho todos os documentos necessários comigo. Certidões, mais certidões, mais algumas certidões, aqui.
¾ Ah, está certo. Falecido, não? – nem respondi – Estou olhando a tela, há um aviso aqui que o Governo liberou esse saldo apenas para os maiores de 60 anos.
¾ Sim? E o que faço, então?
¾ A senhora terá que aguardar seu marido completar 60 anos.
Desisti. Voltei pra casa. Amanhã. Amanhã eu volto. Amanhã eu tento. Quem sabe até amanhã o Governo baixe um decreto pelo qual todos os mortos devem fazer aniversário? 2013, está aí...
Ariane
Escrito por Ariane às 17h30
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Divagando

Sensação que faz doer,
aperto,
respiração suspensa,
entrecortada. Suspiros,
mãos geladas, trêmulas.
Vôos da imaginação,
lembranças que vêm,
e vão.
Rever e reviver,
coisas que foram,
passos, passados.
Cheiro de infância,
visões esfumadas,
realidades, fantasias.
Onde estão?
Cores e sons.
Pedra bruta,
realidade e verdade,
cinzeladas a cortes
carinhosos, profundos.
Atrozes.
Coisas do mundo,
palavra nossa.
Saudade!
Ariane
Escrito por Ariane às 17h40
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Janelas

Olhos meus que enxergam
vidas através de espelhos.
Vidas minhas.
Várias,
que tive ou tenho.
Vislumbres da que terei.
Querências.
Olhos que vêem enganos.
Ilusões.
Letras que se transformam,
sentidos não captados.
Certezas enviesadas,
olhos transversos,
perturbações.
Olhos abertos, atentos,
mesmo assim, iludidos.
Fechados, são universos.
Compreendidos.
Vividos.
Lúcidos e competentes.
Suficientes.
Ariane
Escrito por Ariane às 19h23
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U.T.I.

Ausência
sentida, padecida.
Perplexidade.
Revolução.
Contusão.
Mesmo assim,
a espera.
Cada palavra,
um corte,
em cada corte,
nova cicatriz.
Sedimentando a carne,
cimentando a alma,
enrijecendo o espírito.
Agora posso,
agora quero.
Ausência enfim sanada,
palavra esperada.
Agora! É tarde,
cicatriz instalada.
Fim.
Ariane
Escrito por Ariane às 15h16
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