Uma noite

Dirigem-se, braços carregados de mantas e edredons, ao deck da piscina. Ele confuso: o que iriam fazer ali numa noite gelada de inverno? Ela, feliz: iria partilhar seu momento especial. Típica noite de inverno no campo. Fria, escura, céu limpo, negro veludo coberto de estrelas brilhantes, como pontos de luz artisticamente bordados. Estendem as mantas e deitam-se, lado a lado, apenas eles e a imensidão da noite. Ficam mirando o céu, esquecidos do mundo, mas conscientes da proximidade e calor dos corpos um do outro. Ouve a voz dela, baixinha, próxima ao seu ouvido: ¾ Vamos ouvir as estrelas, como bem sabia fazer o poeta. Ela está feliz. Todos gostam de usar o deck nos dias de sol, para lagartearem à beira da piscina, corpos suados, risos. Os dias são de todos. A todos dedica atenção, desvelo. Mas as noites são suas. Apenas suas. Tem por hábito ficar lá, naquele deck, sozinha, noite após noite, ouvindo as estrelas, que já considera suas amigas confidentes. Mas hoje é diferente. Estão apenas os dois. Um fim de semana especial, particular, e está prestes a dividir seu canto. Seu mundo. Todo o seu segredo. Ele, enlevado, deixa seu pensamento divagar: Sim, vamos ouvi-las. Elas tocam no ritmo perfeito dos nossos corações. Murmuram na freqüência passível de ser captada apenas pelos nossos ouvidos. Nossos corpos se aproximam, envolvidos pelo abraço gélido da brisa de inverno e beijados pelo cio da noite, em gotículas de orvalho que pousam brilhantes sobre nós. Olha para ela e sente-se invadido pela ternura do momento. Não sabe como será amanhã. Não tem certeza de nada, mas sabe que todas as vezes que mirar aqueles olhos recordará do brilho das estrelas. Daquela noite. Ela retribui o olhar. Não sabe como será amanhã. Acostumou-se a não fazer planos. A não esperar nada, mas sabe que ele, quando no futuro olhar para o céu, saberá que serão os seus olhos que o estarão fitando.
Te amo, ouviu.
Sentiu o calor
derretendo os gélidos grilhões
que envolviam suas emoções.
Rediviva,
permitiu a invasão.
Ariane
Escrito por Ariane às 19h48
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Vida

Vem!
Sopra minha boca,
dê-me existência.
Roça minha pele,
trace o caminho,
sinta o eriçar dos sentidos.
Mantenha seus olhos submersos
nos meus.
Aspire minha alma e
ouça o entrecortar do meu
suspiro.
Prova meu sabor de
desejo.
Dissolva-se no universo
do meu corpo.
E, quando saciado, vá.
Se puder.
Ariane
Escrito por Ariane às 20h23
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Da morte

As palavras,
como dardos em cicuta embebidos,
atingiram, certeiras, o alvo.
Seu corpo,
antes frenético,
sentiu o efeito.
Dose exata, medida eficaz.
A mente - enlevada,
alheada - não sente.
Chorar - esquecer
o tudo, o nada.
Torpor. Sorriu.
E assim eternizada,
alcançou a rigidez.
Ariane
Escrito por Ariane às 21h35
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