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Petição

[J. Magalhães-Juiz de Fora/MG]
Em última declaração,
tenho a dizer,
em linguagem por vós entendida,
códigos de amor diversos são,
daqueles da lida.
Fez-se forte quando, débil,
enfraqueceste minha fortaleza.
Sem incisos ou parágrafos,
sou lei primeira.
Interpretada a vossa maneira.
Habeas-Corpus, Excelência!
Do seu amor sou cativa,
não prisioneira.
Ariane
Escrito por Ariane às 13h27
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O amor

Saí do escritório com problemas a assombrar-me. Não meus, mas que se tornam meus a partir do momento que me proponho a ajudar resolvê-los. Casos de separações, divórcios e pensões são rotina em minha vida. Deveria estar acostumada. Deveria. Acho que jamais acostumarei. As idéias vão e vêm, ficam circulando na minha mente e, muitas vezes, a vontade de chacoalhar as pessoas vem forte e tenho que controlar-me para não o fazer realmente.
Há dois fatos que, sem interferência do nosso querer, acontecem inevitavelmente. O nascimento e a morte. Não podemos controlar. Não podemos prever. Não temos escolha se queremos nascer ou morrer. São fatos absolutamente alheios a nossa vontade. Nascemos como vamos morrer. Sós. Ninguém, mesmo que o desejo seja esse, pode tomar nosso lugar nesses momentos. Mas, entre um e outro desses momentos temos algo que costumamos chamar de vida. E é nessa vida que fico pensando. Nessa vida a que damos luz e que temos, se não a vontade, no mínimo o dever de manter e proteger. É tão fácil colocar um filho no mundo. É tão gostoso apaixonar-se, casar, brincar de fazer comidinhas e de bonecas. Parece-me que é assim que anda o pensamento de muita gente. Sem entrar no mérito de vida em comum, de amores que se perdem nessa vida, intolerâncias, falta de objetivos claros e mais um monte de variantes, é fato que ninguém nasceu atrelado ao outro e assim não deve permanecer se a união não puder ser mantida. Separações e divórcios deveriam ser festejados, como é festejado o casamento. Como foi a união, deveria ser a separação. Utopia minha, bem sei. Na maioria dos casos, e aqui friso que estou falando da maioria – sei que há exceções - o que se vê são rancores acumulados, violências bilaterais, do homem, física, da mulher, verbal. Estado de guerra. E, no meio dessa guerra, os filhos. Aqueles que nasceram dessa união, de repente transformam-se na temida “pensão” para os pais e na moeda de câmbio das mães. Os filhos deixam de ser pessoas queridas e se tornam seres quase desconhecidos. Matéria de escambo. Os pais separam-se um do outro e parece que dos filhos também. Deixaram de ser filhos dos pais, para se tornarem “partes” em processos de pensões alimentícias, revisionais de pensão, guarda, posse, propriedade, bucha de canhão! Deixaram de ser pessoas, para se transformarem em propriedade, de um ou de outro, e assim, adquirem valor de mercado. Desorientados, atônitos, sofrem, geralmente calados, a desintegração da vida que conheceram e percebem-se como elemento de negociação da guerra em curso. Enfim, o quadro diário é desalentador. Frustrante. Suficiente para abalar a fé no que costumamos chamar de seres humanos. A mim não importa se é maioria ou minoria. A mim, o que importa é que não deveria acontecer, nunca.
Ariane
Escrito por Ariane às 22h40
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Perfume

Essências e aromas.
Instinto
estimulado, irracional
Memória, lembranças.
Absinto.
Despertar primitivo.
Tarde morna,
beira de rio,
maresia.
Pão assado.
Almíscar.
Mistura de olores,
na boca, sabores.
Lenha e tabaco,
Fragrâncias diversas.
Dispersas.
Alfazema do banho,
lavandas e madressilvas,
cheiro de mato.
De quarto.
Ariane
Escrito por Ariane às 17h06
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Aula de Latim

O frio da manhã fez com que tentasse se aconchegar mais às cobertas. Bom demais ficar na cama, mas essa não devia ser a idéia do telefone cuja campainha tocava e ela ouvia, longe, como se ainda estivesse sonhando. Aquela hora da manhã era sempre a pior de seus dias. Queria dormir, continuar o sonho. Seus sonhos sempre eram bons, mas invariavelmente sem final. Eram os sonhos do inconsciente e ela não conseguia vizualizar seu desfecho, pois se não era o telefone, era o despertador a intrometer-se e fazer com que acordasse antes de chegar ao fim do que quer que estivesse sonhando. Afastou as cobertas e seguiu para sua rotina: banho, café da manhã e aquele sem-número de coisas a providenciar antes de sair para o trabalho. Mas tinha decidido que o dia iria ser diferente. Mandou às favas tudo o que teria para fazer naquele dia e saiu andando, resolvida que aquele dia seria o – seu – dia. Pegou seus escritos e, decidida, encaminhou-se para a casa da amiga. Ambiente novo para ela, aquela mesa farta de pães e doces e letras. Tudo misturado numa babel de sabores para o corpo e alimentos para o espírito. Mulheres, como ela, sentadas à mesa, comendo, bebendo, letras e pães, prosas e chás. Mulheres cheias de histórias, vazias, repletas. Passou aquela tarde entre o desejo e o encantamento. Todos os dias, a rotina, dias passados entre obrigação e satisfação que seu trabalho trazia. Algumas decepções também. Este, o dia escolhido para ser seu, satisfação plena. Cheio de letras, alimento da alma, sempre sedenta de sonhos.
Ariane
Escrito por Ariane às 20h13
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Do molde

Como argila, massa bruta,
encontro o artista.
Sou toda ele.
Com mãos firmes e ternas,
amolda minha maciez.
Atroz, queimo em volúpia
em seu desmedido calor.
Por deleite,
amalgama-me fútil
para que, finalmente,
eu crie alma.
Obra, a mais perfeita!
Sua criação.
Ariane
Escrito por Ariane às 19h20
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Alternâncias

Há algum tempo venho pensando em diferenças. Diferenças de opinião. Diferenças nos gostos, desejos e atos. Diferenças entre o que queremos e o que realmente precisamos. Diferenças entre amar e gostar. Esta última é a que tem ocupado minha mente por muito tempo. Lembro uma ocasião que minha filha, ainda adolescente, tomou uma atitude da qual não gostei. Não gostei da atitude, não gostei do pensamento que a levou a tomar tal atitude, não gostei dela naquele momento. Discutimos e a acusação veio chorosa: ¾ Você não gosta de mim, mãe! Confesso que já esperava esse desfecho e estava preparada para ele. Não era a primeira vez que ela se defendia desta forma e conseguia sempre me fazer sentir culpada por não estar conseguindo demonstrar meu amor e assim, deixá-la pensando que seria mal-amada. Foi nesse dia que resolvi admitir o fato. Ela tinha razão. Eu não gostava dela, mesmo. Não gostava, mas esse fato comporta explicações. Amor, na minha opinião, é sempre incondicional. Quando amamos alguém não há motivo, não há explicação, não há palavras que consigam exprimir ou explicar esse sentimento que está dentro da gente, inundando nosso coração e nos fazendo felizes apenas pelo fato dele existir. Amo meus filhos, sem sombra de dúvida. Amo de maneira plena, incondicional, sem reflexões que façam esse sentimento aumentar ou diminuir, posto que ele não tem medida. Porém, vezes há que eles fazem coisas de que não gosto. Nesses momentos eu não gosto deles. Não gosto do que fizeram e não gosto das justificativas que dão para esses atos. Acredito que a recíproca é verdadeira. Eles me amam, e muito, mas vezes há em que não gostam de mim. Essa diferença, entre amar e gostar é que nos movimenta em quase todos os relacionamentos. Podemos amar, mas podemos não gostar. O amor é perene, existe por si, tem vida própria, não tem medida, não tem justificativa, não tem intensidade. Ele é. O gostar é diferente. Nele, cabem juízos, interpretações, intensidades. É ele que nos ajuda na hora de educar, na hora de discutir, na hora de avaliar erros e acertos. Aquele dia o papo foi longo com minha filha. Se ela entendeu? Não há dúvida que entendeu. Sentir-se amada de forma irrestrita dá-lhe a certeza da identidade. Agir de forma que me faça não gostar dela, naquele momento, dá-lhe a chance de me mostrar que é uma pessoa, independente de mim, é uma personalidade que amo, incondicionalmente, e não gosto, quando faz algo que contrarie o meu senso, a minha visão. E vice-versa. Isso tudo talvez se encaixe naquelas considerações feitas pela Flora, a inteligente e bem-humorada filha do Manoel, do Agreste, em seu post do dia 29 de maio. http://www.bloggagens.blogger.com.br
Ariane
Escrito por Ariane às 16h50
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Escolhas

Vida em preto e branco
Em retas, sem curvas
Mornos dias e noites
Sem esquinas ou suspiros
Policromia dos sentidos
Matiz da vida
Escala de dores, amores
Sabores
Ariane
[Val: esse é para você, amiga de sempre]
Escrito por Ariane às 18h48
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