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Presentes

Sou distraída. Não alienada, mas não me ligo muito a datas comemorativas, dias criados para o amor-perfeito. Acho que o melhor presente que posso dar para minha mãe é aquele mesmo que gosto de ganhar diariamente. Tenho uma mãe e reconheço-a imperfeita, numa imperfeição humana semelhante a minha, mas nunca a quis perfeita. Nunca quis dela o que também não posso ser. E ela tenta. Essa tentativa é que a faz a mais doce e bela das mães. É nessa tentativa que me espelho, tento reproduzir seus ensinamentos e procuro não incorrer nos mesmos erros. Erros meus os crio sozinha, sem ajuda de ninguém. Temos uma relação baseada no amor, aquele amor incondicional que não tem explicação. Apenas é. Lembro de um presente que ganhei. Fui acordada pelos meus filhos num domingo, em meio a beijos e abraços um pacotinho veio parar nas minhas mãos. Olhei espantada e fiquei pensando: por que estão me dando um presente? Será que estão confusos? Falta um mês para meu aniversário! Olhei aquele pequeno pacote e minha expressão deve ter demonstrado toda a minha confusão com aquela festa e mimos. Então, lembrei. Estávamos em agosto. O primeiro agosto depois que eles perderam o pai. O domingo do dia dos pais. E nele ganhei meu presente de dia das mães. Sabor amargo, sabor doce, emoções desencontradas, mas foi o mais lindo presente que meus filhos poderiam me dar. Compreensão. É o que quero dar para minha mãe amanhã, e sempre.
Ariane
Escrito por Ariane às 13h01
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Fátima

Encontraram-se pela primeira vez numa quermesse da igreja, no bairro dela, um daqueles bairros satélites aos da classe média, tão comuns nas grandes cidades. Olhou para ele e percebeu tratar-se de um estranho naquele lugar. Interessou-se pelo belo rapaz. Ela 17. Ele 21. Foi atração à primeira vista. Contou para ela que estava lá com alguns amigos que tinha na faculdade. Ela descobriu que ele fazia parte de uma das famílias influentes do bairro vizinho, um avô tinha doado o sino da igreja. Outro, o piso. Ficou embevecida com a atenção que ele lhe dava e assim começou o namoro que desembocou no casamento. Grande festa, com toda a pompa e circunstância que o bom nome da família exigia. Ela só não sabia que estavam falidos. Nem ele, na verdade. A chegada do primeiro filho já os encontrou em situação precária. Quando veio o segundo, já não dava mais para ficar de braços cruzados, esperando por uma ajuda que não viria. Vou voltar ao trabalho, disse ela, resoluta, ao marido. Mulher minha não trabalha fora! Sem mais discussões. Afinal, ele estava acostumado a ser obedecido. Ela acatou, sempre acatava. Juntou às suas obrigações de mãe-esposa-dona-de-casa, aquelas outras que poderia fazer sem sair do lar, manicure-cabeleireira-bordadeira-crocheteira-tricoteira-vendedora de avon-natura-tupperweare-boleira-passadeira para as vizinhas e amigas, e assim foi vivendo sob os olhares do marido que vivia procurando emprego a altura de seu bom nome. Mas havia algo que a incomodava, atrapalhava a execução de suas atividades. Dois carocinhos no seio esquerdo. No início eram pequenos, mas cresceram de forma assustadora e foi obrigada a procurar um médico, luxo a que não se dava desde o nascimento do segundo filho. Teve que tirar o seio. Inteiro. Após o choque inicial, seu único pensamento era que deveria restabelecer-se rapidamente, tinha um sem número de encomendas que não poderia atrasar. Precisava do dinheiro. Fez longas sessões de radioterapia. Achou que o problema estava terminado. Dona Fátima, seu problema está resolvido, mas vamos ter que fazer um pouco de quimioterapia para garantir o resultado. Lá se foi Dona Fátima às sessões de quimioterapia, nada muito ruim, apenas um enjôo por três dias, não havia do que reclamar. Pela manhã, quando foi levantar-se, percebeu que seu travesseiro estava cheio de cabelos. Passou a mão pela cabeça e eles vieram em tufos entre seus dedos. Olhou horrorizada. Não deveria ter amaldiçoado tanto meus cabelos. Perdão, meu Deus! Foi o único pensamento. Levantou-se, colocou um lenço na cabeça e foi para a feira. Encontrou conhecidas por lá.
¾ Bom dia, Dona Fátima. Como vai a senhora? E seu marido, já arrumou emprego? (o vagabundo – a vizinha resistiu ao ímpeto de completar dessa forma)
¾ Ah, nem me fale Dona Teresa. Nem comento nada disso com o pobrezinho. Não sabe a senhora o quanto ele sofre com a minha doença.
Ariane
Escrito por Ariane às 16h38
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De olhos bem abertos

É difícil resistir a alguns temas. Fiquei com um deles rodando minha cabeça e me descobri fácil. Não resisto também. Estava voltando para casa, rádio ligado ouvindo música quando entrou no ar o programa do PT. As eleições vêm aí e, sinceramente, não estou interessada no “programa” de ninguém. Desliguei o rádio. O trânsito congestionado de São Paulo proporciona momentos em que é possível desligar do mundo e ficar viajando nos pensamentos. Por que é tão importante falar sobre amor e paixão? Por que todos querem saber a diferença e há textos e textos, livros, filmes, música, crônicas e um sem fim de conversas sobre esse tema e ele é sempre recorrente? É claro que não serei eu a esgotar o tema e nem serei eu a dizer a palavra definitiva sobre isso. O que vou dizer deve-se apenas a divagações de congestionamento. Acho que a paixão acontece de olhos fechados. Quando ela se instala, ocupa todos os espaços. Espaços mentais, espaços físicos. Não conseguimos ficar de olhos abertos, apenas sentimos algo indefinível, mas que nos faz comer, beber e respirar esse sentimento. Fechamos os olhos e não os abrimos, simplesmente vivemos essa sensação. Com o passar do tempo essa sensação começa a diminuir e começamos a abrir os olhos e olhar o outro. Então, começamos a ver os defeitos. As imperfeições. As faltas. Tudo o que o outro tem que nos desagrada. E pronto. Acabou-se a paixão e ficamos pensando: o que vimos naquele ser tão diferente de nós que nos levou àquele estado? Não vimos. Estávamos de olhos fechados. O amor? O amor é tudo isso, mas de olhos bem abertos. Conhecemos os defeitos, as imperfeições, a falhas, tudo. Vemos. Sabemos. Estamos de olhos abertos para tudo e diariamente a paixão vem, se instala e fecha nossos olhos a tudo isso, para em seguida o amor abrí-los e mesmo assim, no dia seguinte fecharmos os olhos de novo numa renovação sem fim.
Ariane
Escrito por Ariane às 22h50
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Imagens

É comum ler algum texto em que se fala de espelhos. Já falei sobre isso em algum lugar por aí. Fazer analogias através dos espelhos é algo a que quase todos caem em tentação, mais cedo ou mais tarde. Hoje, estava andando pela rua quando passei em frente a uma loja de eletrodomésticos. Havia aquele sem número de aparelhos de televisão ligados, todos no mesmo canal, enfileirados ao lado, acima e abaixo uns dos outros. Todos os tipos, modelos e tamanhos. Parei para observar. Cada um deles tinha a mesma imagem, mas diferente. Analisei um por um e nenhum tinha exatamente as mesmas cores, a mesma definição. Enfim, cada um cumpria a sua função, mas qual a imagem verdadeira? Qual a real? A imagem jamais seria fiel ao que ela estava tentando reproduzir. Então pensei que nossos olhos também podem ver a mesma paisagem e cada um ter uma percepção de cores, movimentos. Cada um tem uma visão tão particular que, certamente, mesmo que estejamos olhando para a mesma visão, ao mesmo tempo, nossos sentidos perceberão diferentes cores, nuances. Voltei a pensar no espelho que reflete nossa imagem através de nossos olhos. Estando eu na frente de um espelho, verei a imagem distorcida que ele passa para meus olhos, que por sua vez distorcerão, e mandarão essa imagem para meu cérebro e será assim que ele me verá. Que eu me verei. Como consertar essa imagem? Como apagá-la do cérebro? Quebrando os espelhos, Fechando os olhos. Deixando o tempo passar para esquecer a imagem. Reconstruindo-me a partir do que posso sentir e intuir.
Ariane
Escrito por Ariane às 22h40
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Dom Quixote

Eu queria escrever sobre mim, queria dizer como sou, mostrar-me inteira, pensamentos, desejos e realizações. Só saiu isto:
Tempo passado, vida.
Tempo presente, vida!
Tempo futuro, vida?
Como foi,
Como é,
Como será?
Doce, amarga,
Consciente, difícil, Esperança onde?
Ariane
Escrito por Ariane às 02h32
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Liberdade?
“A liberdade é o crime que encerra todos os crimes”.
Quanto tem de verdade esta frase. Em nome da liberdade já foram praticados tantos crimes e tantas guerras que seria impossível enumerá-los aqui. Mas não é sobre isso que quero falar. Quero falar sobre o que ela faz com relacionamentos. Sobre o que a pessoas são capazes de fazer em nome dela. Sobre como o egoísmo, a falta de cuidado com o outro, a avareza de sentimentos, a mesquinharia, o cinismo, são, em todo momento, justificados sob a alegação de liberdade. Na verdade confunde-se livre-arbítrio com a tal da liberdade. A liberdade é conceito, tem limites impostos, pois liberdade não significa o poder de cada um fazer o que tem vontade. Os limites são morais, religiosos, políticos, legais. A liberdade é fato: existe ou não. O espírito pode ser livre, a pessoa não. Nunca existiu e nunca existirá uma pessoa realmente livre. De conceitos, preconceitos, moral, leis e tudo o mais que exista para que se possa viver como queremos: em comunidade, ao lado das outras pessoas ou de apenas uma pessoa, não importa. O livre-arbítrio é que nos faz movimentar entre esse sentimento de alma e a postura do corpo. Entre o que podemos ou devemos fazer e fazemos ou não. A tudo o que nos é imposto podemos concordar e cumprir ou podemos nos rebelar e deixar de fazer. E pagamos a pena, se pena houver. Mas o que dizer dos relacionamentos entre as pessoas? Posso ser gentil ou não. Educada ou não. Posso amar ou odiar ou prejudicar alguém. Posso mentir, trair, enganar. Posso tudo. Posso iniciar algo sob uma premissa, depois mudá-la à revelia do outro e posso dizer que estou usando minha liberdade em fazer o que quero e o que acho correto. Liberdade? Acho que não. Livre-arbítrio. Esse sim é de cada um. Esse é o que move as pessoas. Esse é o que nos move e que tenta justificar aquelas atitudes que tomamos, atitudes que nos satisfazem una e pessoalmente, através da tão cantada liberdade,
Ariane
[a frase acima foi tirada de um belo texto do blog http://nadanobolso.blog.uol.com.br/ ]
Escrito por Ariane às 11h36
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