Retalhos e Pensamentos


Um amigo especial

¾ Deixa eu segurar sua boneca? Quantas e quantas vezes ouvi isso quando era criança. Morava num bairro de classe média baixa, em São Paulo. Ruas de terra e muitas árvores que propiciaram uma infância cheia de brincadeiras e corre-corres. A chegada da primavera era comemorada por nós com alegria e olhos brilhantes. Não porque tivéssemos noção da mudança de estação, mas sim porque era época de cigarras. Aquela cantoria começava logo cedo e continuava noite adentro. Um zumbido que enlouquecia os mais velhos e fazia a delícia da garotada. Naquela época, e lá se vão muitos anos, o leite era entregue pelo leiteiro e vinha em litros de vidro, de boca bem larga coberta com alumínio. Era um custo convencer nossas mães a “emprestarem” as garrafas do leite, mas ficar ouvindo “Ah, mãe, só um pouquinho” o dia inteiro, acabava por convence-las. E lá íamos nós, trepar em postes e árvores, pegar as cantoras e enfia-las dentro do litro de leite. A brincadeira era simples, quem enchesse a garrafa primeiro, ganhava a brincadeira. Passávamos horas, dias e parte das noites nessa empreitada. O prêmio? Um sorvete pago pelo vizinho que estivesse por perto na hora que o “vencedor"  apresentava o litro de leite entupido até a boca com as pobres aladas. Mãe-da-rua, pular corda, queimada, estátua, roda, passa-anel, piques, esconde-esconde... Eram tantas as brincadeiras ! O dia passava rápido demais e só saíamos da rua quando a mãe gritava: ¾ Hora do banho. Subam. E lá íamos nós, eu e meu irmão, reclamando da vida, da hora do banho que nos impedia de continuar as brincadeiras. Hora de lavar os cabelos, colocar o vestido cheio de fitas e rendas, meias, sapatos e descer para a rua novamente, agora comportada, sentar na escadinha da porta de entrada e esperar o papai chegar do serviço. Hora gostosa. Ele aparecia lá na esquina, meu irmão saia correndo, mas eu tinha que ficar comportada, como toda boa mocinha, esperando papai chegar, elogiar o vestido, o cabelo penteado, o perfume e dar o abraço e o beijo tão esperados. Velhos tempos, velhas imagens. Essas velhas imagens trazem de volta outras, já ficando velhas também. Filha no colo, novinha, festa de casamento e eu desfilando com minha nova “boneca”. Um amigo chega perto: ¾ Deixa segurar sua boneca? Num átimo milhões de pensamentos cruzaram minha cabeça.  Ele saberia segurar esta minha boneca? Será que sabe a diferença daquelas bonecas dos nossos tempos de brincadeira com esta que está no meu colo? Ele é portador de Down. O que estará pensando? Será que vai tentar arrancar um braço dela, como os meninos faziam com minhas bonecas? Milhões de pensamentos, inquietação toda passada num olhar que dei para ele e que foi respondido por outro olhar. Fique tranqüila. Sei o quanto essa sua boneca é especial.  Entreguei meu tesouro em seus braços. Nunca ela foi olhada por alguém com tanta doçura. Nunca teve braços mais cuidadosos e carinhosos a enlaça-la. O olhar que recebi dele é indescritível. Agradecimento. Amor. Alegria. Uma mistura de sentimentos que tornou aquele momento único e inesquecível. É. O amor é algo inexplicável em qualquer nível de consciência.

Ariane



 Escrito por Ariane às 11h15
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Ondas

 

 

Hoje estive passeando por alguns blogs. Há alguns realmente bons. As pessoas estão redescobrindo o prazer de escrever e trocar experiências através dessa escrita ou da leitura dos outros.

Sempre fui ávida por leituras, pelos livros, pela história, por biografias. Por tudo o que me caísse nas mãos, para dizer a verdade. Bula de remédio também.

Hoje li um texto que falava sobre as ondas do mar. Há uma música que fala sobre isso da qual sempre gostei, um momento inspirado do autor, na minha opinião, quando diz que “nada do que foi será, do jeito que a gente viu há um segundo”.

Desde o momento em que somos gerados estamos em constante mutação tanto física quanto mental ou emocional.

Não conseguimos compreender isto ou não paramos para pensar. Nossa tendência é querer permanências a fatos, pessoas e estados. Permanências que são impossíveis. Mudam as pessoas, mudam as coisas, mudamos nós. Isso é algo que sabemos, pensamos sobre isso sempre, mas nos recusamos a acreditar nisso porque se assim for a impressão da perda se torna quase insuportável. Se não somos mais o que éramos há um segundo, como ficaremos?

Não somos, impossível sermos, impossível saber como ficaremos. Nossos momentos são vividos por nós, queiramos ou não. As mudanças acontecem à nossa revelia.

Por que, então, esse medo? Por que tanto questionamento?

Sabemos o que esperar: um movimento como o do mar, num vai-e-vem que traz o desconhecido para ser desbravado. Depende de nós esperar pela onda ou passar a vida tentando fugir dela.

 

[O texto sobre o qual falo é do Benno [ http://noitesemclaro.zip.net ]  ]

 

Ariane



 Escrito por Ariane às 18h36
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Partida

 

Vou embora. Olhava para ela quando disse isso. Foi tão difícil determinar-se a isso. Sabia que a reação seria exagerada. Ela sempre foi exagerada. Estava preparado para gritos, lamúrias e brigas. Agressões físicas, talvez. Mas, fora o leve estremecimento que percebeu percorrê-la, nada mais. Nem uma palavra, nenhum movimento. “Talvez não tenha ouvido”, ele pensou.

Vou embora!  Repetiu, a voz saindo mais alta, um pouco desafinada pela tentativa de conter a impaciência.

Por quê? Ela fez a pergunta sem olhar para ele. Como se estivessem discutindo a nova cor da pintura, a compra de um novo carro, a alteração do roteiro de férias.

Você sabe o porquê. Quando abri a filial da empresa no Uruguai,  você já sabia que eu tinha outra pessoa lá. Agora ela está grávida. Eu a amo e vou morar com ela.

Ela não disse nada, não fosse a palidez e a expressão de seus olhos, a impressão é que essa conversa estava sendo travada com outra pessoa.

Impaciente e desconcertado, resolveu sair dali. Não entendia. Tinha certeza que ela faria escândalo, afinal, era assim que vinham vivendo há muitos anos. Os filhos, já crescidos e acostumados com a zona de batalha, entravam e saiam de casa como se nada estivesse acontecendo. Sentia-se um estranho em sua casa. Sentia-se um estranho para aquela mulher e para seus filhos. Amava-os, sem dúvida e ressentia-se com a atitude deles.

Pegou a pequena valise, foi jogando dentro apenas coisas muito pessoais e sem pensar muito mais se dirigiu ao aeroporto. Não estava deixando nada para trás. Os filhos já eram homens feitos, independentes e não haveria problemas em visitá-los ou receber visitas deles. A mulher tinha sido boa companheira no início da vida, ainda sentia carinho por ela, respeito pela mãe de seus filhos, mas isso não bastava para ele. Tinha encontrado um amor que preenchia seus dias, suas horas e minutos. Pleno.

Estava lá há um mês, mal acreditando que pudesse sentir-se tão vivo, tão leve, tão apaixonado. Recebeu um telefonema: Pai, venha. Mamãe está morrendo. Não perguntou nada, sentiu a urgência na voz do filho. Despediu-se da amada, prometeu voltar logo e foi.

Desceu do avião e deu com dois pares de olhos acusadores, frios, mal disfarçando um sentimento que nunca tinha visto nos olhos dos filhos. E dirigidos a ele! O que houve? O que ela tem? — Não sabemos. O médico diz que parece estar secando. Algo incrível está acontecendo com ela. Não come, não dorme, não fala. Emagreceu demais e está morrendo. 

A compreensão caiu sobre ele como um raio. “Essa é a resposta dela. Está se deixando morrer. Sabe que não vou suportar meus filhos me acusando disso. Sabe que não posso ser feliz assim”. Quando chegou ao hospital mal pode acreditar que aquela pessoa fosse ela. Pálida, seca, sem vida. Não fosse a fraca respiração acreditaria estar mirando um espantalho, um espectro, um...” meu Deus, por que ela está fazendo isso? É jovem, ainda bonita, pode encontrar alguém que a ame verdadeiramente, como merece”.  Ela abriu os olhos e o viu. Sorriu debilmente e seu corpo começou a iluminar-se, as cores foram voltando à sua face, sua expressão mudou. — Olá, meu amor. Esta sua última viagem demorou. Que bom que voltou.

Ela desabrochou como um botão que se abre para o sol. Ele não podia acreditar, isso não era amor. Ela não o amava, ele sabia disso. Quando seus olhos se cruzaram viu o que ela estava fazendo. Não sabia como ela conseguia isso, mas secava quando ele se ia para desabrochar novamente quando ele estava perto. Essa era a vingança. Esse o desafio. Ele não tinha como encará-lo. Não tinha como fazer seus filhos acreditarem nele. Estava preso a essa mulher-flor que secava e desabrochava novamente apenas para castigá-lo, numa obsessão doentia, preso a seus espinhos que o feriam e magoavam.

Os gritos dele podiam ser ouvidos apenas por ela, que sorria e meneava a cabeça: Vou embora! Quero ir embora!  Me deixe ir embora!

Ariane

 



 Escrito por Ariane às 20h34
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(Hoje, cedo meu espaço para a Lu* e repasso aqui todo o seu sentimento, nesse email que recebo dela. Geórgia.)

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Por algum tempo, aquele metade menino, metade anjo esteve naquela salinha. Teclando com seriedade e competência. Garantindo-lhe a coerência, com sua finalidade de instrumento de diversão e amizade. Imprimindo-lhe dignidade e educação, para que não se tornasse um Chat desnecessário, que se desenrola através de brigas, mas fosse um veículo de comunicação atento aos interesses de todos ali.

    Tornou a PC 1 mais rica, e nobre. Era sua missão ali, da qual jamais fugiu.  .

    Identificou-se estreitamente com o “papo cabeça”. Neph era parte de um todo dali. Como todos eram parte dele. Uma identidade que só honrou o Chat, nos meses que em que o protagonizou.

   Acompanhei-o de perto, nesses meses todos. E devo-lhe muito neste particular. Sempre teve intenso respeito por mim. Em horas difíceis, ao correr de tantos meses, mesmo com nicks trocados, nos reconhecíamos. E ele era sempre um estímulo. Quando ausentávamos-nos, eram freqüentes os contatos, encorajando-nos o retorno ao Chat.

   Conferir a vida de Neph em relação ao Chat é tarefa preciosa, mas interminável.A quantos jovens ali ele abriu espaço para as primeiras tentativas de “teclada”. E quantos aprenderam nessa escola generosa, e puderam continuar...

   Mais que tudo, porém, é o amigo que se foi. Sua memória ficará, reconhecida de muitas maneiras. Mas sua presença não tem substituição. É lembrança, é saudade, é recordação.

   Tento imaginar o fardo difícil que carregam seus familiares. A eles, o meu respeito, e a minha solidariedade.

   Mas, a vida continua falando mais alto.  Vida que a morte, a cada instante, nos vem roubando, naqueles que queremos bem e que partem, deixando saudade.

   Já me abri muitas vezes, para falar de pessoas queridas que se foram. Hoje, é para ele que me abro...

   Eu me lembro bem das noites em que “chateávamos”, terminadas as tarefas do dia, para falar das coisas que aconteciam. E sonhar com as que até agora não aconteceram...

   Eram momentos de devaneio e descontração, que sua amizade tornavam possíveis e preciosos. Era preciso chegar perto para conhecê-lo. E eu o vi de perto.  Na sua figura marcada por tantas qualidades.

   E ele partiu, deixando em nós uma imagem rica. De menino gentil. De menino bom. De alguém capaz de cativar a confiança. E incapaz de a desonrar.

  Sobretudo, foi um amigo.

  Meu amigo querido.

  E se Deus o levou tão cedo, não foi sem razão.

 

  Lu*, abril de 2004.



 Escrito por Geórgia às 23h31
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Tempo

 

Eu sei que as coisas são difíceis. Sufocantes, muitas vezes. Lidar com pessoas que já trilharam a maior parte do caminho de suas vidas, que estão chegando ao final dele sem a lucidez que ainda temos, não é fácil. É tarefa ingrata, mas temos que desempenhá-la. Ingrata porque dói demais ver no que nossos entes queridos vão se transformando com a chegada da idade. Alguns têm sorte. Chegam ao fim enfraquecidos em suas carnes porém com a mente lúcida, com o espírito brilhando e de repente esse brilho se apaga. Outros, a maioria talvez, acabam se transformando numa pálida imagem do que já foram. Agem de forma que nos deixam ora perplexos, ora nervosos, ora tristes, ora nos fazendo rir de seus atos, como se crianças fossem novamente. Temos nossas opções na hora de cuidar deles.Se for com um sorriso nos lábios, será assim que nossos filhos farão conosco, quando estivermos nós no fim dessa estrada. Fim que se aproxima a galope, sabemos. Se, ao contrário, nosso tempo não for suficiente para cuidar deles, se nossa paciência não suportar, se nos transformarmos em carrascos daqueles que dependem hoje de nós, como nós dependemos tanto deles... Não sei. Não sei como será conosco. E não apenas pensando no nosso futuro é que devemos tratá-los com amor. Devemos isso a eles. Devemos a nós. Se bem que o amor não deve ser ligado ao verbo dever  e sim a querer. Querer o melhor para eles. Querer vê-los bem. Querer fazer o possível, e o impossível também, para que percorram confortavelmente esses últimos passos do caminho. Somos pessoas como outras quaisquer. Sentimentos existem, o que conta são aqueles que escolhemos mostrar para as pessoas que amamos.

Muitas vezes fazemos coisas que nos arrependemos mais tarde. Então, pedimos desculpas. O que são desculpas? De que adianta um pedido de desculpas? Ele resolve tudo? Arruma tudo? Desculpas são modos que criamos para não matar sentimentos nobres obscurecidos por fantasmas que insistem em nos visitar a cada hora, cada momento. Nossas atitudes são regradas por nossos medos e angústias, parecidos com os medos e angústias de todas as outras pessoas que nos rodeiam. O que difere uns e outros é a forma como isso tudo é externado. Se de forma ácida, impaciente, irada, ou se a doçura é a forma escolhida para tratar os problemas.

Os nossos pais, avós, parentes são algumas das nossas responsabilidades como já fomos responsabilidades deles um dia. Dinheiro, trabalho, coisas e bens são importantes mas o colo, o bem querer, o calor, o carinho, o cuidado,  não é possível obter de forma tão honesta e sincera a não ser através da troca.

 

Ariane



 Escrito por Ariane às 22h03
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Cheiro de saudade

 

Estava na estrada quando sentiu. Apurou mais o olfato e lá estava, de verdade. O cheiro da lenha queimando. O cheiro da infância, das férias na fazenda. Dos primos, do gado, dos cavalos e cães pastores. Fechou os olhos, esquecida do motorista ao seu lado, dos filhos no banco de trás e sonhou, relembrou dias que estavam tão no fundo de sua memória que pareciam esquecidos. O grito do leitão que tinha sido escolhido para a refeição do dia seguinte. As galinhas alvoroçadas porque perceberam o dedo apontado para elas e o perdigueiro atento para saber qual deveria trazer para o dono que apontava e dizia: Aquela, Dog! Aquela!  O cheiro do limão, da cebola e das mexericas, aromas constantes enquanto caminhava pelas trilhas que levavam ao açude.O cheiro do café no bule, do bolo de milho que a tia fazia todas as tardes para acompanhar o café. O alho para temperar o feijão. As carambolas, ácidas, verdinhas, saborosas, arrancadas do pé em frente ao terreiro que era o quintal da casa grande. Cheiro de saudade. Cheiro de quero mais. E o pensamento voando. Alguém no carro ligou o rádio e a música misturou-se ao aroma da lenha. Ah, larga essa boneca faça-me o favor. Larga isso tudo e vem brincar de amor...de amor, de amor... Pronto! O que era isso? Uma volta ao passado? Uma música que ouvia nos tempos de criança, pequena ainda, quando ficava na janela da casa, com a boneca nos braços e ouvia o namoradinho, vizinho, cantando distraído. Largar a boneca? Brincar de amor?

Devagar foi deixando aromas e sons de lado, abriu os olhos e viu-se dentro do carro. Marido ao lado. Filhos no banco de trás. Largou a boneca? Será que estava brincando de amor?

Rumo à velha fazenda. Outra época. Outra vida. Melhor, pior? Não. Apenas diferente. Agora não eram bonecas e sim filhos queridos, desejados e amados. O amor, construção diária. Obra heróica de pares que se unem e vivem para desenvolver algo que nunca chega ao fim em sua descoberta. 

Ariane



 Escrito por Ariane às 19h00
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