Retalhos e Pensamentos


Sonhos

 

Praia. Férias. Corpos suados, calor abrasador. Um estalo:

      Vamos comprar melancia !! Podemos colocar gelo em cima dela, vai ser uma delícia !!

Um olha para o outro, mensagens são trocadas, aceitas, ficaram aguardando a reação dos outros à melancia.

      Ah não, não vou, diz o homem. Ninguém me tira daqui, não vou sair da rede por nada neste mundo.

      Vão vocês, diz a outra. Fico por aqui lavando meus cabelos.

Ainda reclamaram um pouco “tudo sobra para nós” enquanto se encaminhavam para o elevador. Em silêncio. Tudo o que faziam quando estavam a sós era em silêncio. Olhavam um para o outro, tocavam-se  de leve, caminhavam lado a lado apenas apreciando a proximidade de seus corpos. Ouvindo pensamentos.

Entraram no supermercado, escolheram a melancia mais bonita, mais vermelha, que convidava a um mergulho em suas águas refrescantes. Ela pensou: preciso disso. Preciso refrescar-me. Aplacar  a sede. E ele olhava para ela com aqueles olhos fundos, misteriosos, cheios de mensagens que ela sabia interpretar: Vamos aplacar nossa sede. Vamos.

Passaram pelo caixa e saíram para a rua carregando a fruta para o destino a que nenhum dos dois queria voltar. Quando olharam para frente, o viram. Um mar lindo, brilhante, ondas perfeitas, numa tarde perfeita. Ao longe um navio saindo do porto e dirigindo-se para alto-mar. Os dois pararam e ficaram observando. A voz dele veio de longe, um sussurro rouco e abafado que ela mais sentiu do que ouviu:

      Você iria comigo? Pegaria esse navio e partiria comigo?

      Sim. Sim. Mil vezes sim. Mas qual seria o destino?

Ele calou-se. Não havia destino. Não haveria amanhã.

Voltaram para o apartamento.

 

Ariane



 Escrito por Ariane às 13h23
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Desejos

Nossas entranhas nos dizem o que desejamos

O pensamento voa para longe

Sabemos querer, sabemos sonhar

 

O que nos leva para terras distantes

É o mesmo que nos traz de volta para a realidade

Nossos sonhos, nossos pesadelos

 

Quando estou pensando no tudo que foi

Penso no tudo que poderia ser

O corpo aquece, a mente esfria

 

Onde está  você?

Ariane



 Escrito por Ariane às 16h46
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Pra não dizer que não falei de amores

Estavam sentados um ao lado do outro em confortáveis poltronas, de frente para a TV que estava ligada falando para o vento e mostrando imagens a dois pares de olhos desatentos, que apesar de não estarem querendo, olhavam para ela.

A tensão era tanta que não sabiam como conseguiam agir, falar, fazer qualquer movimento, sem que o marido de uma e a mulher do outro percebessem o que estava acontecendo.

Os braços dos dois displicentemente soltos nos braços das poltronas, faltando milímetros para se roçarem numa carícia tão desejada que era possível ver as faíscas pulando dos poros de cada braço que, apesar do desejo quase angustiante, mantinham-se imóveis.

Olhos na TV, todos assistindo à programação daquela tarde de domingo, um janeiro quente, tão quente que a brisa havia se escondido do sol, deixando aquele ar de coisa parada que, ao mesmo tempo que torna a tarde modorrenta, aguça sentidos e desejos incontidos e inconfessáveis.

“Vou dormir” anuncia o marido. Foi um choque para ela ouvir aquela voz. Veio de outro mundo. Um mundo onde aquela voz não cabia mais. “Sim, querido, vá. Te acordo com um café, mais tarde”. Vá, pensava ela. Vá e me deixe, não percebe o que estou sentindo? Não percebe essa tensão? Não percebe que estou sedenta de paixão? Não. Claro que não. Não é para perceber uma vez que a paixão, o desejo, a tensão, não é a ele dirigida e sim ao homem que está sentado a seu lado. A mulher, a outra, que na verdade era a mulher dele, mas na cabeça da apaixonada, era a outra, começa num tagarelar sem fim e acaba por tirar da bolsa uma corrente com um símbolo pendurado. “Veja o que compramos para você. É um mantra de amor”. Ela demora a entender. Compramos? Amor? Olha para a mulher com surpresa, desvia os olhos dela e olha para ele. Sim. Está lá. Todo o amor. Não é paixão. Não é apenas paixão. Amor. Explodindo em estrelas, saindo pelos olhos dele, inundando a sala de luz. Uma luz mais forte que aquela do sol de janeiro. Mais intensa. Mais brilhante. Meu Deus, como ela pode não estar vendo essa luz? Mas a mulher dele não vê. Há luzes que são tão especiais que apenas seres especiais podem vê-las. Somente os seres que estão vivenciando o mesmo estado, a mesma vontade. “Obrigada. Linda a corrente. Lindo o mantra”. Sabe que falou, sabe que usou as palavras adequadas, no tom de voz que deveria ter usado. Tudo está absolutamente normal. Nada que ela, a outra, pudesse notar.

 Escrito por Ariane às 19h27
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Mas ele notou. Notou a voz trêmula. Notou a emoção com que ela olhou para o símbolo do seu amor por ela. Notou a dificuldade com que ela tentava prender a corrente em seu pescoço, que a esta altura já apresentava gotículas de suor, a despeito da pele que estava fria. Reações exageradas do corpo dela, que ele sentia no seu corpo, como se estivessem unidos num só sem que, no entanto, estivessem ao menos se tocando. A mulher, a outra, decide que quer tomar um sorvete. Vou descer, comprar um sorvete. Alguém quer algo? Sim, ela grita. Um grito que fica apenas na sua mente. Quero. Quero que você vá. Demore bastante. Tome 1, 2, 10 sorvetes. Encontre uma amiga, conhecida, bata um longo papo com ela. Nos deixe aqui. Apenas nós. “E o seu marido dormindo”, diz uma voz que ela cala com o ardor dos inconseqüentes. Ele não consegue responder. Apenas meneia a cabeça numa negativa ao sorvete e numa delirante felicidade pela oportunidade surgida sem que ninguém tivesse dado um passo em direção a ela. Ordem dos céus. Das estrelas. Do destino. Ela foi. Os dois continuaram estáticos, imóveis por alguns segundos após a porta bater, ouvindo o ressonar do marido no quarto ao lado. Então, olharam-se. Nada disseram. Não havia nada a dizer. Nunca haviam se tocado antes. Sempre haviam feito amor com os olhos, com os gestos, mas nada havia sido dito até então. Os braços, que ainda estavam distantes, aproximaram-se até se tocarem. Um frêmito percorreu o corpo dos dois. Naqueles braços, naquele toque, foram trocadas todas as juras de amor. Foi sentido todo o desejo que pulsava, tão forte que a impressão que tinham era que o mundo não existia mais. Apenas eles. Apenas aquele toque. Então ele aproximou sua face da dela. Delicadamente pegou a corrente que descansava em seu regaço. Beijou o símbolo do amor. Selou a união de almas e espíritos livres, presos em corpos presos a outros corpos. Arriscaram a troca de um olhar e afogaram-se um nos olhos do outro. As bocas se aproximaram e naquele beijo trocado, fundiram suas almas, muito mais que qualquer outro ato que pudessem praticar. Fundiram suas carnes, seus espíritos, seus desejos. Jamais ela vai esquecer aquela tarde. Jamais ele vai viver outro amor.

 

Ariane


 Escrito por Ariane às 19h27
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Vozes

 

É dia já. Acordei com a cabeça em ebulição. Tantas coisas a fazer e tantos pensamentos se metendo onde não são chamados. Não tenho tempo para eles. Preciso trabalhar. Sim, diz uma vozinha vinda não sei de onde, você não tem tempo. Nunca tem tempo. Não tem mesmo ou não quer tê-lo?

Resmungo e mando a voz calar a boca. Estou ocupada. Tenho outras coisas pra pensar. Eu não sou importante. O que importa é o que faço. O que tenho a fazer.

E lá vem ela, impertinente. Você não é importante? Quem lhe deu o direito de dizer se você é importante ou não? Já perguntou para outras pessoas? Já perguntou pra você?

Ora, cale-se, voz estúpida. Meu nome mudou. Não é mais aquele que você conhecia. Minha vida mudou. Eu mudei. O que importa como, por que, para quê?

O que importa é que mudou e não vai adiantar você ficar falando porque eu também já fiz isso, há muito tempo atrás. E deu no que deu.

Ariane



 Escrito por Ariane às 12h09
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Sobre armários, gavetas e porões

Eu estava sem inspiração para escrever hoje, e continuo sem ela. Resolvi publicar o papo que tive hoje, reservo o nome da interlocutora. Esse papo se deu após uma leitura da minha interlocutora aos textos da Maria [o link está aí, ao lado, recomendo a visita]. Discussões, não brigas, sobre o que pensamos e como pensamos. Uma das premissas ao criar o blog. Quem tiver paciência, divirta-se.  J

 

 

Ø       Tô numa dor ímpar, olhos molhados e feridas abertas. Andei lendo uns textos, e a mulher me mexeu e remexeu. Não leia,  deixa pra um dia que vc estiver muito, muito forte.

ariane: eu sou muito, muito forte, meus ataques de histeria dão e passam....não fico remoendo, nem absorvendo nada, sou advogada, esqueceu? e meu melhor amigo é médico, médico especializado em dores de doentes terminais, a gente desenvolve uma proteção contra absorção

Ø       mas vc, como toda normal, tem momentos de fraqueza, não tem? Então, deixe pra um dia em que vc não estiver esponja, ou .. ah, sei lá.

Ø       Imagina, Ari.. que bobagem vc tá falando?? proteção contra absorção???

ariane: ahã...

Ø       então tá,.em momento oportuno, eu te cobro essa sua não-absorção.

ariane: isso existe...vc não tem noção do que a gente vê de merda, no real.... cara a cara.... todos os dias....

Ø       então tá então, o mais irônico desse nosso papo, é que a pessoa que escreveu os textos que mexeu comigo, é advogada também... e, ainda assim, sofre!

ariane: será que sofre como vc? ou coloca pra fora, nas letras, esse sofrimento todo?

ariane: é diferente, moça



 Escrito por Ariane às 21h44
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Ø       eu não sou uma ave rara, ari

ariane: eu tb sinto as coisas.... mas não coloco pra dentro, dou um jeito de colocar pra fora. Por que  acha que discuto tanto? Que  tenho ataques? Que fico escrevendo? Não adianta cantar, quando a vontade é matar um....e tb não adianta *se* matar

Ø       quer saber? vou parar de escrever, e vou dormir...

ariane: eita...que coisa inquieta, credo

Ø       eu não sofro...  descobri que eu não sofro, apenas sou sensivel, mais nada.

ariane: acho que sou insensível, tsc

ariane: Menina.... que *dor* é essa que vc tanto fala? a dor de estar viva? a dor de passar por sentimentos que todos passam? Há escritos que são poesia, é saber falar da dor, não é sentir diferente

Ø       a dor de sermos adultos.

ariane: sermos adultos não significa doer... significa ter consciência das limitações.... isso não é dor.... é mais desejo não pergunte de que.... ninguém sabe, por isso confundem com dor.

 



 Escrito por Ariane às 21h43
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Ø       Deixa pra lá, Ari. Nós duas temos visões opostas das coisas. Eu sou ave rara embora odeie ser chamada assim

ariane: Moça.... essa opção pelo sofrimento, eu não fiz... poderia ter feito, minha vida tem lances  absolutamente doloridos..... e há todo um processo que eu poderia ter iniciado para *pensar* nisso.... a opção foi guardar e deixar num canto.....trabalhar outras coisas.

Ø       tá, ariane. Quando eu estou atacada pela sensibilidade, eu falo ''a'' e vc entende ''b'', nunca vamos nos entender nessas horas.

ariane: rs... fala *b* então....

ariane: acho meio sacanagem sentar e pensar na vida....  no tudo o que ela *dói*... perder tempo, enquanto viaja na dor, esquece de olhar pela janela

Ø       Existe uma hora pra tudo nessa vida, Ariane. Eu estou sempre olhando pela janela, mas as vezes, e é mto bom também, mergulho ....   tiro o chapéu, ......  coloco salto ou caio do salto. Tudo tem sua hora.

ariane: se formos remexer nas lembranças, trazer de volta todos os sentimentos, acho que é sofrer de novo.... e de novo....

ariane: a hora de sofrer é quando os sofrimentos acontecem, mais que isso é masoquismo

Ø       Quer me deixar em paz com os meus mergulhos? Tem beleza também no fundo do mar, é muitooo, muito colorido aquilo lá.

Ø       Mulher que gosta de questionar!

ariane: ahã.... pode sofrer à vontade, se é o que quer....:-)

Ø       e dai? quando sofro, cresço.

ariane: e quer crescer pra quê?

Ø       E não é hábito, haja visto que não sou masoquista.

ariane: o que vc entende por *crescer*? sofrer? ser feliz? saber viver? o que é crescer?

Ø       crescer não tem muitos significados não Ariane. O final é sempre o mesmo.

ariane: se o final é sempre o mesmo, melhor escolher um caminho menos dolorido pq, na verdade, tá tudo lá, na nossa mente...não precisamos remexer neles, pra saber exatamente o que fazer com tudo isso.... na hora que precisarmos, aquilo tudo nos faz agir.



 Escrito por Ariane às 21h42
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Ø       Tá.... Tá..... Tá.....  Vc não é a dona da razão, nem do crescimento alheio. Cada um tem seu meio, inicio e fim.

ariane: sou não...estou falando o que eu penso....

Ø       Nunca vi alguém dizendo que arrumar gavetas não seja dolorido. tô dizendo gavetas, armários, porões.. ou vc acha que aves-raras não têm porões?

ariane: vc pode mudar o que tem nas gavetas, armários ou porões? pode mudar uma vírgula do que esteja lá?

Ø       Posso.

ariane: não pode mudar, nem pode arrumar...

ariane: não pode

ariane: o que está lá, está....

ariane: não dá para mudar.... o que vc pode fazer é mudar o que vai enfiar em novas gavetas, armários.... e até nos porões

Ø       nãooooooooooooooooooo???????????????

Ø       Posso mudar meu entendimento. E qdo mudo meu entendimento, eu mudo meus patrimônios.

ariane: que grande egoísta....

Ø       Posso isso também.

ariane: vc pode mudar o SEU entendimento....

Ø       Na realidade, qualquer um, pode tudo!

ariane: mas tudo o que está na sua gaveta diz respeito apenas a vc??

ariane: se eu mudar o MEU entendimento, o que vai mudar para quem já morreu???? aquilo que está naquela gaveta vai estar lá para sempre sem mudanças, não adianta eu mudar, melhorar para mim...

ariane: posso fazer isso, sim... mas o que está lá.... está..... sem mudanças.... posso mudar o futuro. não posso mudar o passado, e o que está no passado, fez o que sou hoje...

Ø       Ah. Eu não vivo em função dos outros. Mudo a mim, os outros que se cuidem. Quando eu me mudo, automaticamente estou mudando a valorização que tenho de cada um que passa pela minha vida. Ou pra mais, ou pra menos. Depende da minha conscientização.

ariane: não há gavetas a serem arrumadas, há gavetas a serem preenchidas.



 Escrito por Ariane às 21h42
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Ø       Ariane, posso te dizer uma coisa?

ariane: pode

Ø       Vc é muito radical quando começa seus discursos.. Fala como se tudo funcionasse realmente assim, e no fundo, no dia seguinte, vc sabe exatamente que as coisas não são radicais, são flexíveis. Repense isso.

ariane: se eu não fosse assim, não teria sobrevivido...        

Ø       Eu sou uma vencedora. E a cada vez que me olho no espelho eu gosto do que vejo. Essa beleza sim, a terra não come. Mas nada disso seria isso, se eu não mergulhasse de quando em vez.

ariane: bem.... talvez seu mergulho seja diferente do meu.

Ø       Eu sempre fui pura emoção.Vou continuar sendo. Só me entendo assim.

ariane: emoção é paixão em estado controlado... não consigo ser assim..... sou 8 ou 80.... não há controle.....nem no controle... nem na paixão...

Ø       cada um é cada um... e viva la diference!.....

ariane: sim...

Ø       a vida é mutação.

ariane: talvez seja... não sei se mudamos realmente, na essência...mudamos pensamentos, formas de agir... mas a essência... não sei, não... na verdade, acho que a vida é uma luta constante contra o que somos e aquilo que sabemos dever-ser....

 

 



 Escrito por Ariane às 21h41
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Invariáveis

Não posso dizer que o final de semana tenha sido calmo. Também não foi agitado. Diria que foi atípico, como a atipicidade rotineira da vida.

Nada demais, além das costumeiras visitas sabadeiras, os almoços domingueiros, o cinema [filme bárbaro – Alguém tem que ceder – um dia falo sobre ele] um pouco de trabalho para tentar não sufocar na segunda. E ei-la aqui.

O telefone toca, às seis da manhã. Toca porque, preguiçosa, não me animei a comprar um despertador, prefiro a companhia telefônica se dando ao trabalho de me despertar. Levanto e vou para a rotina das manhãs. Banho, coisa boa.

Secador. Roupas, essa é a hora crítica porque, invariavelmente aquela que escolhi na noite de domingo, não é a que vou vestir nas manhãs de segunda. Freud explica, talvez.

Hora de acordar o filhote, que me olha preguiçoso, resmunga e tenta virar para o outro lado. Já estou a todo vapor, acordadíssima, banhada, trocada e perfumada e não lhe dou chance de continuar naquele sono bom dos adolescentes. [Por que as escolas nos fazem acordar tão cedo na fase da vida que é tão bom dormir pelas manhãs?]

A preguiça dele faz contraponto com minha celeridade, enquanto coloco água para o café, ele se arrasta para o banho.

Finalmente, depois dele, invariavelmente, procurar onde deixou material escolar, carteira, celular, o tênis... meu Deus, onde estará o tênis??... saímos atropelados, pois estamos à sete minutos da escola e é exatamente este o tempo que temos para chegar lá.

Não sei como, mas após perder a paciência com o portão do prédio que, invariavelmente, enrosca para abrir e fechar, com as vizinhas que, invariavelmente, fazem fila dupla em frente à padaria, dificultando minha saída, com os ônibus que, invariavelmente param fora do ponto ocupando toda a rua, com o semáforo que, invariavelmente pego vermelho...chegamos na escola a tempo.

Ele fica na escola e sigo meu caminho para meu escritório, ligo o rádio para ouvir as notícias:

“... acho que o governo deveria se preocupar com os agricultores que já existem, cuidar deles e não se preocupar com esses que estão dizendo ser agricultores. Resolvendo o problema desses que já existem o trabalho do governo já estará sendo bem-feito...”

Começo a prestar atenção na entrevista, Chico Grazziani, ex-deputado federal, especialista em questão agrária, falando sobre o Movimento dos Sem Terra.

Quer dizer que o governo deve se preocupar com os agricultores que já existem? Novos agricultores nem pensar? Quem irá plantar amanhã? Quem irá cuidar da lavoura? Esse é o plano do governo para a agricultura?

Desligo o rádio.

Invariavelmente, não será uma boa segunda-feira.

Ariane

 

 



 Escrito por Publicado por Ariane às 10h43
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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher, de 36 a 45 anos, retalhosariane@uol.com.br
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